quarta-feira, 25 de março de 2020

2020: O ano que não começou





No último dia do ano, a animação toma conta de todos, no mundo todo. É tempo de celebrar, encontrar os amigos, dar boas vindas ao ano que se inicia. Festas, champagne, fogos de artifício. Quem não ama?!
Eu! 
Eu não amo o Reveillon! Mais do que isso: eu não gosto mesmo! Nunca gostei. Já passei essa data com a família próxima, com a família extensa, com os amigos, sozinha em casa com o marido, em Copacabana, em Nova York, na praia, na cidade... Não adianta. Talvez por gostar tanto do natal eu odeie o ano novo. Sinto uma angústia, um desconforto, uma estranheza, uma leve tristeza, não só no último dia do ano, mas também nos primeiros dias do ano que se inicia. 
Sempre foi assim, mas acho que eu tentava esconder isso de mim mesma. Eu sempre minimizava meu sentimento e me esforçava para aproveitar o dia como todo mundo. Em 2019, porém, prestes a completar 45 anos, não sei por que, uma luz se acendeu e de repente, pela primeira vez na vida, me dei conta realmente de que não gosto dessa data. Tive consciência plena disso e não só internalizei esse sentimento como o expressei. No café da manhã do dia 31, revelei para o marido e as filhas a minha grande descoberta: tá bom, eu prepararia o arroz com lentilha, eu brindaria com champagne, eu cantaria o adeus-ano-novo-feliz-ano-velho, mas, após quase meio século de existência, tinha realmente descoberto – Eu Não Gosto de Ano Novo!! 

Ah... a força da palavra... 

Acordei no dia seguinte, abri os olhos e tudo parecia normal. O celular indicava a fantástica data do primeiro dia do ano. As notícias de jornal eram velhas. Só se ouvia o silêncio lá fora. Começou a chatice: nada de novo... no ano novo... Odeio as listas de resoluções típicas dessa época, mas não resisti. Peguei o caderno novo de capa verde e escrevi algumas intenções para o ano que se iniciava: 

-     ler finalmente aqueles clássicos nunca lidos (não passam deste ano!)
-      um minuto de plank (um tipo de abdominal) por dia antes do banho (dizem que, quando se quer adicionar um novo hábito à rotina, deve-se associá-lo a um outro hábito já adquirido – por isso as abdominais antes do banho...)
-      óleo de coco no rosto todo dia antes de dormir por um mês (dizem que faz milagres!)
-      voltar a acordar mais cedo para meditar por meia hora que seja (o dia sempre começa melhor com esse momento de silêncio e introspecção)
-    encontrar uma aula de kundalini yoga (minha prioridade este ano, mesmo que seja longe de casa)
-      usar menos o smartphone (já baixei o app que avisa quando passamos dos limites)
-      comer "mindfull" (colorido, saudável, sem olhar o celular, mastigando bem e saboreando os alimentos)
-      e por aí vai...

Nossa, eu não gosto de ano novo, mas este 2020 promete... 
Depois do almoço deste mesmo dia, após insistir na lentilha que ninguém mais tinha comido na noite anterior, sinto um leve mal-estar. Putz! A velha dor de cabeça vem aí... Não aquela dor forte e insuportável que me leva pra cama durante dois dias, mas aquela dorzinha chata, que dura dias, incomoda, limita e deixa os nervos à flor da pele. 
Para as pessoas de sorte que não conhecem o cabuloso mundo das enxaquecas, isso parece não ser nada. Já quem conhece sabe que essa pequena dor, essa dorzinha que é considerada por muitos frescura (até pelas pessoas que você mais ama) limita muito a vida quotidiana. A gente até se levanta de manhã, toma café, dá beijo nos filhos, leva na escola, ri, mas sempre que pode procura um lugar pra recostar a cabeça (o vidro da janela do carro, a mesa da cozinha, a parede do banheiro, as próprias mãos) pra ver se alivia um pouco. 
Decido iniciar os meus projetos de leituras. A primeira meta do ano é reler Crime e Castigo, de Dostoiévski. Sempre me animo a pegar um livro novo e me aventurar nas suas primeiras páginas, mas não consigo me concentrar. Isso já aconteceu antes, claro! Mas dessa vez tento várias vezes, durante alguns dias e não consigo passar da segunda página. O início de um clássico que já é um pouco mais denso torna-se muito pesado para uma mente dolorida. Tento o livro sobre o Machado escrito pelo Drummond (Uau!!), e nada... Contos, crônicas, poesia são mais leves, mas os meus escritores favoritos não querem dialogar comigo neste momento. Qualquer tentativa é inválida. O pensamento está sempre acelerado, não consegue focar...
Tento a meditação. Essa vai limpar minha mente, me fazer me sentir melhor e me ajudar a me concentrar nos meus projetos. Escolho um lugar calmo, monto um pequeno altar, coloco meu mantra preferido, sento-me em posição confortável, foco na respiração, lenta e profunda e... Nada... Doem-me as costas, a respiração está acelerada e só me vem a imagem da dor, irônica, sarcástica, rindo de mim. O incômodo, a sensação de mal-estar é permanente. 
Esforço físico de qualquer tipo torna-se um martírio. Mesmo a yoga, que para muitos é remédio pra dor de cabeça, no meu caso só piora. Se tiver que colocar a cabeça pra baixo então... Nem pensar! 
Durante as crises de dor de cabeça, os aromas, mesmo os mais suaves, incomodam muito. Isso significa que minha rotina de beleza com óleo de coco dura apenas um dia. Não suporto o cheiro adocicado, e a textura oleosa no rosto me dá agonia. Alimentação saudável? Foi totalmente esquecida porque o enjoo me faz ter vontade de comer só cream cracker. Até alguns velhos hábitos, como as aulas de italiano, caminhadas e as aulas de yoga ficam em suspenso. 
Me sinto frustrada. Os primeiros dias de janeiro já vão longe e ainda não entrei na rotina nem coloquei em prática nenhum dos itens da minha lista. Nos momentos em que a dor parecia cessar, eu ficava eufórica, animada pra finalmente reiniciar, mas depois o incômodo voltava, e tudo ficava parado novamente. 
No final desse janeiro perdido, fui a um neurologista. Mais um... Ele me receitou um remédio novo (sim, já tentei muitos!), aparentemente sem nenhum efeito colateral, perfeitamente indicado para o meu perfil. E ainda me ajudaria a dormir melhor. Maravilha, afinal a enxaqueca crônica também prejudica muito o sono. Ahã... sim... Perfeito! Que maravilha poder finalmente começar o ano, me sentir bem, acordar descansada, retomar minhas atividades, apreciar coisas simples, como o sabor do café pela manhã.
No início de fevereiro, comecei o tratamento. Com o primeiro comprimido, me senti meio sonolenta, com o segundo veio uma leve tontura, com o terceiro a tontura piorou, com o quarto minha língua já não se mexia e parecia do tamanho de um boi e eu já não conseguia me levantar da cama. Pronto! Planos adiados mais uma vez... Claro que não tomei mais o maldito remédio, mas levou pelo menos uns quinze dias até que os efeitos dos míseros quatro comprimidos diminuíssem e eu voltasse a me sentir normal novamente. Normal = com aquela leve dor de cabeça...
Um dia, disse pro marido: Quer saber? Minha realidade é essa; tenho que aprender a conviver com essa dor. Vamos lá tentar ver as coisas positivas e começar o ano de vez. Crianças na escola, marido no trabalho, o sol brilhando lá fora em pleno inverno. Volto às caminhadas, às aulas de italiano, a geladeira está cheia de comidas saudáveis. Contacto uma professora e finalmente agendo uma aula de kundalini. Tudo encaminhado! Finalmente 2020 vai começar. Com um certo atraso, mas tudo bem. Minha simpática professora de italiano comenta que, para a sua nonna, o ano só começava mesmo em março. Vê?! Nós, brasileiros, também não começamos pra valer só depois do carnaval?! Pois é... Tá valendo...
No fim de semana, saí com a filha pequena pra dar uma volta no bairro. Dia lindo! Céu azul, sol reluzente, temperatura agradável, tarde perfeita pra um sorvete na sorveteria preferida. Ainda na fila, vejo um cartaz divulgando o chocolate quente, feito com chocolate ao leite, uma raridade na Itália, porque aqui geralmente é com chocolate amargo, e não gosto. Não resisto e, na sorveteria preferida da vida, num lindo dia de sol, perfeito para um gelato, pedi a tal chocolata calda. Sentamos no banco da praça em frente, a filha com seu sorvete de stracciatela, eu com o meu copo fumegante (que ainda vinha com dois biscoitinhos), e me deliciei com a cremosidade e o adocicado da iguaria, chegando a comentar: o melhor chocolate quente que tomei na vida. Resultado: o tal me fez mal, tão mal, me deu uma indisposição estomacal tão forte que passei dois dias de cama, o marido tendo que levar e buscar as crianças na escola, os compromissos todos adiados, a aula de yoga cancelada... 
Mais uma semana de suspensão... do ano... da vida. 
Quando começo a melhorar, recebo uma comunicação da escola dizendo que, devido ao coronavírus, as aulas estão suspensas durante uma semana. O quê?! Vou ter de cancelar minha aula de kundalini de novo?!?! Paciência... paciência... É só por uma semana... Afinal, esse vírus é só uma gripe, não é mesmo? 
Depois de uma semana, o governo italiano decide fechar todas as escolas da Itália, depois resolveu fechar os museus e monumentos históricos, depois as igrejas foram proibidas de celebrar missa, as aulas nas academias foram canceladas, os restaurantes e cafés e salões de beleza fecharam as portas, as igrejas também estão fechadas. Pra completar, proibiram as pessoas de saírem às ruas, por tempo indeterminado.
Estamos todos trancados em casa (pior, no apartamento), o país está parado, as ruas, sempre repletas de turistas, estão desertas, e não há perspectiva de melhora.

Ah... a força da palavra... 

Foi com tanta certeza que resolvi contrariar a chegada do ano novo que até me sinto culpada. 
Quem sou eu pra comandar o tempo? Mas o ano de 2020??? Ah... esse? Posso garantir que este ano ainda não começou. 








domingo, 3 de junho de 2018

O voo do bordado





Malas prontas: coração apertado.
Em poucos minutos, sai o carro que me levará novamente para longe do meu país, da minha família, da minha mãe.
Respiração acelerada, mãos frias, nervosismo, ansiedade. Verifico que nada está ficando pra trás, dou as últimas ordens às meninas e me sento à mesa, ao lado de minha mãe. O momento deveria ser só de espera. Faltam poucos minutos para a hora combinada. Poucas palavras, apenas perguntas retóricas para romper o constrangimento do silêncio.
De repente, aparece minha irmã, carregando umas pastas enormes, cheias de papel. Ela se senta, arrasta a toalha do café para o lado, espalha as pastas por quase toda a mesa, as abre devagar e começa a tirar, um a um, vários, muitos papeis de seda, com riscos de bordado.
Penso no quão inapropriada era aquela atitude. Eu, prestes a ir embora, para bem mais longe do que o costume, sem saber quando voltaria, e ela já preocupada com as coisas dela, com providências a tomar, com um futuro próximo que de maneira alguma me incluiria. Sinto como se ela estivesse antecipando a minha partida.
Lentamente, minha irmã tira os papeis de seda das pastas e os vai colocando ao lado, sobre a mesa, à medida que vai tecendo alguns comentários. Alguns são pequenos, de um palmo, outros bem grandes, enormes, dobrados em dois ou em quatro. Uns desenhados apenas a lápis, outros reforçados a caneta, quase sempre azul. A maioria em preto e branco, mas alguns bastante coloridos.
Flores, muitas flores, das mais variadas espécies. Grandes, exuberantes, aglomeradas. Outras pequeninas, delicadas, simples, solitárias. Frutos e frutas também. De vez em quando brota, do meio daquele jardim, um utensílio de cozinha, um bule, uma xícara de chá. Ou alguns passarinhos, que parecem querer voar, se libertar.
Eu não consigo tirar os olhos da cena à minha frente, daquele movimento lento e contínuo do passar das folhas de seda, bem devagar, da esquerda para a direita, conduzidos pelas mãos pequenas e alvas da minha irmã, numa espécie de dança. O abrir e fechar das folhas de papel finíssimas, levemente transparentes e delicadas, é como o abrir e fechar das asas de pássaros. Pássaros brancos, de asas tênues e maleáveis, que se abrem e se fecham, se abrem e se fecham, se abrem e se fecham, devagarinho. Pássaros lá longe, bem no alto, dando a quem de baixo os observa a ilusão de que estão voando muito mais devagar no céu azul, deslisando sobre o infinito, para depois pousar no espaço ao lado, em busca do descanso merecido.
Minha visão se torna turva, envolvida pela transparência do papel de seda em movimento lento e pela dança suave das mãos da minha irmã. Meus olhos, fixos no que está a se passar ali à frente, abrem-se e fecham-se lentamente, as pálpebras pesadas, um peso gostoso, como quando estamos vendo um filme bom, mas o sono insiste em nos dominar. Pálpebras-pássaros. Pálpebras-asas. Abrindo-se e fechando-se lentamente. 
A voz macia da minha irmã, o falar igualmente lento, além do silêncio da minha mãe, tudo isso modifica o ritmo do meu pensamento, me conduzindo a uma espécie de transe. Não estou mais ali, sentada na sala que seria em minutos o meu ponto de partida. Não. Agora estou em processo de voo, a voar bem alto, no ritmo das asas alvas e calmas daqueles pássaros de papel. 
Devem ter-se passado uns três minutos, mas parece que foi uma manhã inteira de voo. Quando meu irmão buzina lá fora, acordo do transe. Não assustada, mas tranquila. É hora de ir embora... mas eu, que, minutos atrás era uma pilha de nervos, agora me sinto tranquila, em paz.
Para não perder o costume e para disfarçar o choro, antes de iniciar as despedidas, reclamo com minha irmã que ela já fez bordados para um monte de gente, de fora e da família, mas nunca bordou nada para mim.
Pois ontem, depois de cinco meses, chegou em minha casa, num país distante, uma caixa dos Correios brasileiros. Abro ansiosa e lá dentro estão, como em um ninho, duas toalhas bordadas por ela, especialmente pra mim.
Branquinhas... alvas como as pombas da paz... macias... cheirando a sabonete... o crochê – só o crochê – cuidadosamente engomado... Ao centro, o bordado de uma rosa cor de rosa intenso que acabou de desabrochar, no auge da sua beleza e vitalidade, meio tombada para o lado, num jogo de claros e escuros, sombras e luzes, folhas verdes a emoldurar.




Fico ali parada por alguns minutos a observar: a maciez do tecido, a textura dos pontos meticulosamente lavrados, a perfeição do avesso... E eu, que pensava não fazer parte do futuro da minha, me dei conta de que ela dedicou horas dos seus dias a mim, escolhendo a toalha, elegendo as cores, separando as linhas, passando o risco, bordando cada ponto cuidadosamente, crochetando, lavando, engomando, até chegar a hora da despedida. Sim... porque também há que se desapegar do bordado, que levantará voo, viajará por dias até vir pousar aqui ao meu lado, agora, trazendo um sentimento de amor, cuidado e pertencimento de que o coração precisa para seguir voando.
Obrigada, minha irmã. Te amo!





domingo, 13 de agosto de 2017

Se podes ver, repara!



Passei muitas vezes em frente a essa casa abandonada no centro histórico de Assunção, no Paraguai. A construção bastante deteriorada me chamava a atenção devido a um fato inusitado: na sua lateral, nasce uma árvore. Das entranhas das paredes trincadas, descascadas, maltratadas pelo tempo, brota o tronco, vivo, vivíssimo, já adulto, que vai subindo parede afora, até o topo, onde a copa aflora sobre o telhado, dando um show de deslumbre e demonstração de força da natureza. 
Tentei por tudo neste mundo fotografar essa parede-árvore, árvore-parede. De perto, de longe, do outro lado da rua, na ponta dos pés, quase deitada na calçada... Celular, câmera velha, câmera nova... Nada! Nenhuma foto faz jus ao que se vê quando se passa. 



Um dia me dei conta de que, aficcionada pela árvore, nunca tinha tido a curiosidade de olhar o outro lado, aquilo que estava escondido depois da curva da esquina, na verdade a fachada principal da casa.
A primeira reação foi o susto, tamanha a beleza da construção! Chega até mesmo a ser difícil olhar. É preciso afastar-se, ir ao outro lado da rua para obter uma visão geral. Então se vê. O  número é o 592, impresso duas vezes na porta e, para não restar dúvida, uma vez mais na parede. A cor, meio amarelada - nem amarelo nem mostarda nem creme - transmite uma sensação de paz e tranquilidade, um pouco prejudicada por algumas pichações sem sentido. A forma retangular revela uma estrutura simétrica: ao centro, a porta altíssima, imponente, de madeira, coroada por uma estrutura oval de ferro que deixa entrever a escuridão lá dentro; duas janelas médias de cada lado, com suas respectivas varandinhas, provavelmente apenas estéticas, pois muito estreitas. Na calçada à frente, entre a porta e a primeira janela à esquerda, magnânimo e elegante, um ipê, conhecido na região como lapacho. O tronco, que se bifurca bem embaixo, divide-se em dois um pouco mais finos, os quais vão subindo levemente na diagonal, para só depois, bem em cima, abrir-se em galhos ainda mais delgados, agora com folhas rareadas pelo inverno, mas no auge de sua floração cor-de-rosa. 
Bem no canto à esquerda, como parte da própria casa, mais ou menos na altura das janelas, uma floreira! Um vaso de flor de cimento, um pouco escurecido pela umidade, ali inserido, cuidadosamente. Não sei como alguém poderia alcançá-lo para dispor ali alguma planta, mas o maravilhoso ipê, consciente dessa quase impossibilidade, trata, com a ajuda do vento, de fazer passear por perto suas flores rosadas, lembrando essa antiga peça da sua utilidade original.



Um outro pormenor, porém, apenas me foi possível com a ajuda do zoom da minha câmera fotográfica. Esse instrumento poderoso me permitiu reparar no detalhe para mim mais precioso da casa número 592. No topo, no alto mais alto da casa, bem no meio de uma espécie de armação arredondada, encontra-se, pequenina, uma delicada e simpática conchinha do mar. Parece banal, mas a beleza e a falta de entendimento quase me levam a perder o ar. Como pôde alguém, ao projetar ou construir essa casa, ter o cuidado de colocar um enfeite tão pequeno ali, tão distante do olhar dos transeuntes? 
Tendo como cenário o azul claro e translúcido do  céu de inverno, as folhas daquela mágica árvore, suas florezinhas rosadas e os cabos de eletricidade que desajeitadamente passam por ali, lá está ela, levemente carcomida pelo tempo, talvez pelo movimento de pássaros, escurecida pelo mofo nas curvas menos expostas ao sol, mas com seu estilo e delicadeza preservados, quase um brinquedo de menina, um talismã, um enfeite para colocar no cabelo. E por que justo uma concha, símbolo da fertilidade feminina, da fecundidade, lembrança de mares e oceanos? O significado de prosperidade talvez me faça mais sentido, dada a localização outrora nobre. Imagino que milhares de pessoas passaram por este lugar inúmeras vezes, durante anos, séculos até, e nunca repararam… 
Sábio José Saramago, que, em seu livro Ensaio sobre a Cegueira, afirmou: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." Não basta olhar… é preciso ver com mais atenção. Não basta ver… é imprescindível reparar! Não fosse o meu olhar atento, e nesse caso incentivado pelo fotográfico, esse detalhe teria passado despercebido, e eu não teria tido o prazer de apreciar essa fazedora de pérolas, escondida no alto de uma linda casa antiga abandonada em uma rua do centro de Assunção. 

P.S. Foi justamente esta foto, a da pequena conchinha (exposta no topo desta página), a que escolhi para me representar na exposição final do meu Curso Básico de Fotografia no Instituto de la Imagen, cujo tema foi "Imágenes de Asunción". Talvez ela não seja tão óbvia, pois não representa uma cena facilmente reconhecível como asuncena. Não é o rio. Não é a rua. Não é o homem. Não é o tererê. Não é o ñaduti. Mas representa o meu olhar sobre a cidade. Para mim, é necessário praticamente afastar com as mãos os cabos de energia em excesso (e a poeira, e a poluição, e a sujeira, o trânsito caótico e agressivo, a falta de manutenção e organização, os serviços muitas vezes precários e imperfeitos), pedindo-lhes licença, para ver as flores dos lapachos, o céu azulíssimo do verão, o nascer e o pôr do sol laranja-avermelhados, as casas e edifícios antigos, a arborização intensa superverde, as pequenas flores que brotam acidentalmente na calçada, algum trabalho quase artístico escondido nos muros envelhecidos, o sorriso do menino no sinal de trânsito, a poesia da cidade enfim.... Para aquele que passa e olha sem reparar (na maioria das vezes nem olha), as conchinhas delicadamente dispostas no alto dos edifícios simplesmente não existem... E nesse passar apressado, nublado, muitas vezes cego, a vida perde em beleza, em suspiros, em sentido. 




domingo, 12 de março de 2017

Nenhuma mania, nenhuma fotografia




Nas contações de histórias da família, fala-se muito sobre minha avó paterna, aquela mulher franzina, de lenço no cabelo, forte e brava que criou os sete filhos sozinha, que um dia, com raiva do meu avô, atirou as jaboticabas que colhera para ele ladeira abaixo, que fumava tanto que até o médico recomendou que continuasse pra não morrer de abstinência e que não queria nenhuma neta com o seu nome porque todas as amélias são sofredoras.
Mas e minha avó materna? O que se lembra dela? Apenas que se chamava Percília e que morreu quando minha mãe tinha quatro anos de idade. Só isso... Nada mais se sabe. Nenhuma descrição. Nenhuma história triste ou engraçada. Nenhuma mania. Nenhuma fotografia. Nenhum anel. É como se essa mulher praticamente não existisse.
Como isso é possível?
Da próxima vez, nas rodas de bate-papo e risaiadas sem fim, vou reivindicar a sua lembrança. Vou trazer à tona a história da minha avó, aquela que deu a vida à minha mãe, que a gerou, a trouxe em seu ventre durante nove meses, a deu à luz. Isso já basta, é muito e é tudo! Sem ela, nenhum de nós existiria como existimos, não seríamos o que somos, da maneira como somos.
O que há dela em minha mãe? O encanto pela leitura, que a fazia ler até de madrugada à luz de velas no colégio interno onde viveu durante muitos anos? A alegria da juventude, que a levava a bailar pelos salões das festas de família com o primeiro par feminino que aparecesse (feminino, porque meu pai não dançava e morria de ciúmes se fosse masculino)? O jeito meio esbaforido de querer fazer as coisas rápido, servir a mesa num minuto, ajeitar tudo pra depois recostar-se no sofá? O apreço por brincos e colares? O cerrar de dentes quando fica brava? O hábito de dar beliscões doloridos para repreender? Será que essa minha mãe veio dela?
E o que deixou de ficar dela em minha mãe devido à sua morte prematura? Pobre mãe, no auge da sua maternidade, as filhas ainda tão pequenas, percebendo aos poucos que morria... Pobre filha, órfã aos quatro anos, sem compreender, sendo separada das irmãs e levada para sempre... Teria alguém explicado a ela o que acontecera? Que sua mãe morrera e por quê? Poderia ela entender ou simplesmente deixar a ausência tomar conta de seus sonhos de infância? Brincava essa minha mãe menina? Corria pelos campos? Vivia? Recebia carinho? Cuidados? Ou se deixava ficar, quietinha, esperando a mamãe voltar...
Imagino-a – minha avó – magra, mas não muito, de pele branca como a da minha mãe, cabelos negros como os da minha mãe, no ombro, meio ondulados, usando saia abaixo dos joelhos e blusa clara de botões. Vejo-a de pé, deixando-se ficar um pouco mais atrás, desfocada na imagem, parada, em silêncio, deixando-se ver, mas não muito.
Ah... Como eu queria ter uma foto sua sequer, já mulher adulta, já mãe da minha mãe. A imagem que minha mãe teve ao nascer e em seus primeiros anos de vida. Ou quem sabe um livro que fora seu. Uma presilha de cabelo. Um lenço perfumado.
Como mãe pertencente à sua linhagem, levo muito de você, mas não tenho consciência plena dessa herança. A maneira como penteio o cabelo das minhas filhas talvez... Algum traço da minha fisionomia... Os dedos longos das mãos...
Hoje eu te reverencio. Me curvo diante de ti, te agradeço a vida que me deste e aos meus irmãos por meio da minha mãe. Se pudesses, serias tão orgulhosa da sua filha – minha mãe: da maneira otimista como ela viveu a vida, do sorriso em seu rosto, de como foi e é querida por todos os amigos e familiares, da sua elegância, da fé em Deus que a move, da dedicação à igreja e à família, da capacidade de multiplicar o pão nos momentos mais difíceis, da educação que nos deu, do poder de sua oração diária pelos filhos e netos. E como se orgulharia de nós, netos e bisnetos... Somos uma família bonita e especial... Graças também a ti, que nos possibilitou a vida! Obrigada! Obrigada! Obrigada!
Não se penitencie. Não tens culpa. Tudo o que acontece, mesmo a dolorosa ausência, precisa acontecer. Tem o seu significado e nos faz crescer. Precisávamos viver essa ausência.
Com cuidado, respeito, lágrima nos olhos e as mãos fortes, seguras, junto seus pés retos lado a lado, pouso suas mãos sobre o seu peito, como em uma oração, cerro suas pálpebras com delicadeza e faço o sinal da cruz.
Descanse em paz.
E que nós que aqui estamos continuemos nosso caminho, cheios de vida (VIDA!), até quando tenha de ser.
Amém!


domingo, 22 de janeiro de 2017

Ajeita sua carteira!



Mesmo com a excessiva doçura nas feições, na voz, no olhar e nos gestos – verdadeira, autêntica, natural –, ela parecia uma menina absolutamente normal.
Normal no sentido de que acorda de manhã não muito cedo, toma chá ao invés de café com leite, sai pra trabalhar com lenço de gatinhos no pescoço, lê um best seller no ônibus, sabe de cor as canções da Cássia Eller, evita as pedras pretas das calçadas de Copacabana, toma sopa de ervilhas com hortelã às seis da tarde e escreve haicais de madrugada no computador.
Até que o mistério acontece... Bem à minha frente no café, depois de bebericar o espesso chocolate quente e lambiscar as migalhas do pan au chocolat que ficaram no prato de porcelana, parece desviar levemente a atenção das palavras que eu insisto em proferir e, com uma concentração lenta, mas ímpar, inicia um processo de revelações infinitas. O olhar acompanhando o movimento do corpo, tão focado quanto a respiração, as mãos delicadas, retira da bolsa marrom claro uma bolsa de tamanho médio de cor azul-turquesa. Abre o zíper tão devagar que nem se ouve o ruído e, de dentro, retira uma outra bolsa ainda menor meio cor de rosa, e outra amarela do mesmo tamanho, e desta outra supercolorida com motivos de desenho animado, e outra pequena, e outra pequenina, e mais outra bolsinha superminúscula em formato de coração, e outra, e outra, e outra, tantas que nem sei. Perdi as contas, confusa em meio àquela imensidão de compartimentos e possibilidades.
Comentei sobre a beleza de uma e de outra – gostei especialmente daquela com personagens de desenho animado – e indaguei alguma coisa lateral, não querendo adentrar muito na intimidade daquela menina. Sim! Quer coisa mais íntima do que bolsa de mulher? O que dizer daquelas inúmeras bolsas dentro da bolsa? É intimidade demais! Fiquei quieta.
Mas a menina, percebendo meu interesse, não demorou muito e começou a abrir cada bolsa, cada bolsinha, revelando um  mundo diverso.
Escova de cabelo e liguinhas; escova de dentes, fio dental e pasta; lenços de papel secos e umidecidos; celular; chaves da casa e do escritório; remédio pra enxaqueca e Florais de Bach; creme para as mãos e protetor solar; bloco de papel e canetas coloridas fosforescentes; cartão de crédito e cash; moedas – algumas antigas, sem valor; documento de identidade e título de eleitor; espelhinho redondo de abrir e batom cor de boca; as poesias completas de Mário Quintana – de bolso – com um recibo de supermercado escondido entre as páginas, no verso a indicação de um romance de Mia Couto; uma fotografia antiga. Tudo arrumadinho, dividido por categorias, cada uma em sua pequena bolsa, que se encaixava numa bolsa maior, depois em outra e outra, para por fim esconderem-se todas na bolsa mãe principal.
Por abrir, havia ainda uma bolsa de tamanho médio, verde-esmeralda, que ela deixou por último. Olhou bem nos meus olhos, demorou o movimento, enfim abriu lentamente o zíper e de lá foi tirando, aos poucos: uma feliz lembrança de infância; os planos de viajar para a Grécia; a tristeza de um amor perdido; a sombra no banco da praça; a sensação fresca da cachoeira; um pôr do sol esquecido; a gota de chuva; o encontro de domingo; uma estrela do céu; o conforto na poltrona da sala; o giro dos planetas; o sabor a castanhas do bolo; o banho quente ao fim do dia; o sonho de chegar à Lua.
Abriu todas as bolsas. Mostrou o que tinha dentro. Revelou. E revelou-se.
Meus assuntos quotidianos perderam valor... Se é que um dia tiveram. Melhor calar, observar e aprender com a maneira doce, suave e colorida como ela organizava o quotidiano e por fim a vida. Sim! A bolsa, arrumada daquela maneira, era uma forma de vida, uma visão de mundo.
Um dia ouvi algo assim: se quer melhorar de vida, organiza suas gavetas. Agora entendo: se quer ter uma vida mais suave, ajeita sua carteira.
Após dizer tchau, sacou da bolsa, não sei de qual parte, não pude ver (apesar de ela saber onde tudo está de cor e salteado), uma daquelas caixinhas de Tic-Tac, enfeitada com estrelinhas douradas que ela mesma colara, e dela retirou, perfeitamente enroladinho, o fone de ouvido. Estendeu, procurou indecisa a direita e a esquerda, colocou nos ouvidos cuidadosamente, deu um tempo pra música começar e pôs-se a andar, sem antes virar-se para mim de olhos sorridentemente fechados e soltar no ar um beijo estalado.