domingo, 22 de janeiro de 2017

Ajeita sua carteira!



Mesmo com a excessiva doçura nas feições, na voz, no olhar e nos gestos – verdadeira, autêntica, natural –, ela parecia uma menina absolutamente normal.
Normal no sentido de que acorda de manhã não muito cedo, toma chá ao invés de café com leite, sai pra trabalhar com lenço de gatinhos no pescoço, lê um best seller no ônibus, sabe de cor as canções da Cássia Eller, evita as pedras pretas das calçadas de Copacabana, toma sopa de ervilhas com hortelã às seis da tarde e escreve haicais de madrugada no computador.
Até que o mistério acontece... Bem à minha frente no café, depois de bebericar o espesso chocolate quente e lambiscar as migalhas do pan au chocolat que ficaram no prato de porcelana, parece desviar levemente a atenção das palavras que eu insisto em proferir e, com uma concentração lenta, mas ímpar, inicia um processo de revelações infinitas. O olhar acompanhando o movimento do corpo, tão focado quanto a respiração, as mãos delicadas, retira da bolsa marrom claro uma bolsa de tamanho médio de cor azul-turquesa. Abre o zíper tão devagar que nem se ouve o ruído e, de dentro, retira uma outra bolsa ainda menor meio cor de rosa, e outra amarela do mesmo tamanho, e desta outra supercolorida com motivos de desenho animado, e outra pequena, e outra pequenina, e mais outra bolsinha superminúscula em formato de coração, e outra, e outra, e outra, tantas que nem sei. Perdi as contas, confusa em meio àquela imensidão de compartimentos e possibilidades.
Comentei sobre a beleza de uma e de outra – gostei especialmente daquela com personagens de desenho animado – e indaguei alguma coisa lateral, não querendo adentrar muito na intimidade daquela menina. Sim! Quer coisa mais íntima do que bolsa de mulher? O que dizer daquelas inúmeras bolsas dentro da bolsa? É intimidade demais! Fiquei quieta.
Mas a menina, percebendo meu interesse, não demorou muito e começou a abrir cada bolsa, cada bolsinha, revelando um  mundo diverso.
Escova de cabelo e liguinhas; escova de dentes, fio dental e pasta; lenços de papel secos e umidecidos; celular; chaves da casa e do escritório; remédio pra enxaqueca e Florais de Bach; creme para as mãos e protetor solar; bloco de papel e canetas coloridas fosforescentes; cartão de crédito e cash; moedas – algumas antigas, sem valor; documento de identidade e título de eleitor; espelhinho redondo de abrir e batom cor de boca; as poesias completas de Mário Quintana – de bolso – com um recibo de supermercado escondido entre as páginas, no verso a indicação de um romance de Mia Couto; uma fotografia antiga. Tudo arrumadinho, dividido por categorias, cada uma em sua pequena bolsa, que se encaixava numa bolsa maior, depois em outra e outra, para por fim esconderem-se todas na bolsa mãe principal.
Por abrir, havia ainda uma bolsa de tamanho médio, verde-esmeralda, que ela deixou por último. Olhou bem nos meus olhos, demorou o movimento, enfim abriu lentamente o zíper e de lá foi tirando, aos poucos: uma feliz lembrança de infância; os planos de viajar para a Grécia; a tristeza de um amor perdido; a sombra no banco da praça; a sensação fresca da cachoeira; um pôr do sol esquecido; a gota de chuva; o encontro de domingo; uma estrela do céu; o conforto na poltrona da sala; o giro dos planetas; o sabor a castanhas do bolo; o banho quente ao fim do dia; o sonho de chegar à Lua.
Abriu todas as bolsas. Mostrou o que tinha dentro. Revelou. E revelou-se.
Meus assuntos quotidianos perderam valor... Se é que um dia tiveram. Melhor calar, observar e aprender com a maneira doce, suave e colorida como ela organizava o quotidiano e por fim a vida. Sim! A bolsa, arrumada daquela maneira, era uma forma de vida, uma visão de mundo.
Um dia ouvi algo assim: se quer melhorar de vida, organiza suas gavetas. Agora entendo: se quer ter uma vida mais suave, ajeita sua carteira.
Após dizer tchau, sacou da bolsa, não sei de qual parte, não pude ver (apesar de ela saber onde tudo está de cor e salteado), uma daquelas caixinhas de Tic-Tac, enfeitada com estrelinhas douradas que ela mesma colara, e dela retirou, perfeitamente enroladinho, o fone de ouvido. Estendeu, procurou indecisa a direita e a esquerda, colocou nos ouvidos cuidadosamente, deu um tempo pra música começar e pôs-se a andar, sem antes virar-se para mim de olhos sorridentemente fechados e soltar no ar um beijo estalado.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Pães de saudade



Recentemente, decidi que já tinha passado da hora de eu, mineira orgulhosa e expatriada, aprender a fazer pão de queijo. Expatriada, nesse caso, significa ser obrigada a comer uns pães de queijo falsos mundo afora e principalmente estar sempre desprovida dos ingredientes mais comuns a essa iguaria: polvilho doce ou azedo, queijo Minas, ovos caipiras e, no meu caso, experiência.
Munida de força de vontade, teimosia e gula, lá fui eu pesquisar os melhores substitutos. Sim... não tem jeito... tem que se conformar em substituir os componentes da receita. O polvilho não é o mesmo, queijo parmesão não é queijo Minas (Ah... mas não é mesmo!!!), ovo comum não é o caipira. Outra alternativa seria fazer como minha cunhada, mineira muito mais autêntica do que eu, de sotaque inalterado, que, quando também vivia fora, certa vez quase foi presa pelas autoridades aeroportuárias por portar uma grande quantidade de um pó muito branco, de origem duvidosa. Custou pra ela convencer o senhor mal encarado e de má vontade que aquele composto era inofensivo, item de necessidade máxima para o mineiro que vive fora e que seria utilizado apenas em âmbito familiar, para amenizar as saudades da terrinha e dos cafés da tarde em família. É viciante sim! Mas isso o senhor emburrado não precisava saber...Como sou mais tímida nesses assuntos de alfândega, decidi encontrar os substitutos. 
Pesquisa vai, pesquisa vem, depois de perguntar a conhecidos e indagar chorosa ao mestre Google, comprei, muito a contragosto, um tal de ‘almidón’, dito substituto do polvilho, além do bendito queijo italiano e uns ovos gigantes que não costumam ter gosto de nada. Ah, decidir qual receita usar também foi uma luta. Uns escaldam (aquecem o leite e óleo), outros não; uns misturam tudo, outros vão por partes; uns sovam, batem muito na massa, outros só misturam... Houve até uma senhora no Youtube que descaradamente usou a batedeira. Ué, mas não tinha que sovar até doer o braço? Decidi usar a receita que minha irmã detalhada e pacientemente me passou por Whatsapp. Separei os ingredientes, os coloquei em cima da bancada da cozinha, fechei a porta (uma experiência como essa não dá pra compartilhar com as crianças), respirei fundo e comecei.
Despejei o ‘almidón’ na bacia, aqueci o leite com o óleo, coloquei lentamente a mistura líquida sobre o meu falso polvilho e fui misturando com a colher de pau, pensando na possibilidade enorme de aquele grude não dar certo e ter de ir pro lixo. Deixe esfriar, disse minha irmã. Enquanto esperava e misturava aquela farofa branca (acho que é assim mesmo que tem de ser), uma calma estranha foi tomando conta da cozinha. Que silêncio! Admirei-me de que as crianças não abriram a porta de repente para perguntar o que eu estava fazendo e pedir para ajudar. Nem o marido resolveu entrar de supetão pra indagar em que gaveta estava o recibo da escola do mês de dezembro de 1998. Nada me roubava a atenção. A concentração necessária à minha primeira tentativa de fazer pão de queijo estava até então preservada. 
Pronto, esfriou bastante. Já posso colocar os ovos. Um a um! E pra misturar, tem que ser com as mãos!! O primeiro ovo deslisou para dentro da bacia e fiquei logo tentada a quebrar a gema. Senti a textura viscosa e fria em minhas mãos. Uma explosão de cor amarela sobre o branco. Mais um ovo, as cores a se misturarem, o dourado da gema mesclando-se com a brancura pegajosa, que ia aos poucos se transformando em uma mistura mais homogênea. O silêncio... Minhas mãos a pintar aquele quadro de girassóis iluminados. 
De repente, uma sensação estranha... Uma presença foi-se tornando cada vez mais forte ao meu lado.  Uma voz fina, aguda, de mulher, se ouvia bem próxima aos meus ouvidos, e eu podia mesmo sentir suas mãos habilidosas a guiar as minhas na tarefa secular da sova. Primeiro as pontas dos dedos a destruir a perfeição molenga da gema, depois a mão inteira a mesclar tudo em movimentos circulares, quase uma dança, até não se ver mais a cor amarelada, e por último a força das mãos, já quase o punho, a amassar vigorosamente a poção que mais tarde se transformaria nos pãezinhos dos meus sonhos.
A partir daquele momento, eu não estava mais sozinha, tampouco estava na cozinha da minha casa. Uma força mágico-sensitiva me transportou para uma época dourada, mais de 20 anos atrás, e eu era agora uma menina de uns 13 anos, assistindo minha tia Eudalina a preparar a massa dos seus deliciosos pães de queijo. Ali estava eu, como inúmeras outras vezes, ao seu lado, na cozinha de sua casa, a observar atentamente suas mãos grandes a sovar, a sovar e a sovar. Eu não prestava atenção a nada daquilo naquele momento, nem me passava pela cabeça a possibilidade de no futuro querer fazer aquela receita, apenas queria provar a iguaria e também deixar-me estar, ficar ao seu lado, ouvindo sua voz terna, sentindo-me protegida por seu corpo alto, envolvida nas histórias de família que ela tão bem conhecia, encantada com seus cabelos lisos cor de prata e com a tiara fina que sustentava os fios de seda.
Eu não aprendi nada sobre pães de queijo naquelas tardes longas, calmas e aconchegantes que eu passava na casa da minha tia, mas, voltando à fria cozinha da minha casa, agora bem longe no tempo e no espaço, percebi que eu já sabia como sovar a massa do pão de queijo. Eu sabia fazer isso, sem nunca ter feito antes! E segui, com a maior propriedade, amassando, integrando tudo, misturando o amarelo da gema com o branco úmido e morno do polvilho, bem devagar porque não queria que o dourado se diluísse ao ponto de não ser visto mais. Tampouco queria que a magia do momento acabasse logo. Que privilégio esse encontro! Nunca pensei que uma simples experiência culinária me levaria para perto da minha tia querida, aquela que teve um papel tão importante em minha vida, que cuidava de mim quando minha mãe viajava, que fazia chá de camomila para o lanche da tarde, que costurava vestidos de gala, que tinha em seu quarto uma cama de princesas para as visitas, que em seu Fusquinha branco sempre nos levava pra ver a bandeira brasileira ser hasteada em frente ao Palácio do Planalto e que certa vez levou uma 'cambada' (era assim que ela se referia às pessoas, à 'galera') pra ver a Seleção de Romário e Bebeto desfilar no Eixão após a conquista da Copa.
Mas é hora de parar, deixar a massa descansar por algum tempo, remoer essas memórias há tempos adormecidas. Depois, tem que enrolar pacientemente as bolinhas, com as mãos besuntadas de óleo, lambrecadas daquele grude, e vê-las crescerem dentro do forno, o coração aquecido pelas lembranças de infância.
Não, meu pão de queijo não resultou muito bom. Descobri que, além do queijo e do polvilho, os ovos daqui não são os mesmos dos de lá – desbotados, não tingem de alourado as bolinhas depois de assadas. Ficou pálida, insossa e grudenta a minha experiência. Mas a alma, essa sim, acabou dourada, leve, radiante, acrescida de magia, conforto, memórias e sobretudo de saudade, muitas saudades.



terça-feira, 12 de abril de 2016

A crise roubou a poesia





Ninguém tem dúvida de que a atual crise política brasileira nos tirou alguns elementos essenciais, como o bom senso, a educação, a capacidade de raciocínio e de diálogo, o direito à opinião, a mudar de opinião, entre outros. Ter uma posição política divergente da do outro, nos dias de hoje, é cometer um crime hediondo, correndo o risco de, com um só clique, ser bloqueado raivosamente da vida do outro, para nunca mais.
Mas qual não foi a minha surpresa quando me dei conta de que a crise roubou também a poesia. Sim!! A poesia! De maneira sorrateira, mas nem por isso menos violenta, acabou com ela, deu fim, empurrou-a para um buraco negro do qual não sei quando poderá voltar.
Tenho o hábito de diariamente visitar sites, blogs e páginas de literatura, mais precisamente de poesia. É algo que me faz bem, me completa, adiciona vida, beleza,  emoção e – por que não? – conhecimento ao meu dia a dia. Como é bom abrir o Facebook e, além de notícias dos amigos distantes, fotos da família, alguma piada de futebol e notícias do Brasil, encontrar os versos dos meus poetas favoritos, um poema novo de escritores consagrados ou dos novos, análises teóricas ou mais emocionadas daquele poema famoso, além de novidades do mundo cultural e literário!
Nos últimos meses, porém, essa minha diversão favorita  passou a ser frequentemente interrompida por uma enxurrada raivosa e dilacerante de mensagens de teor político-partidário. Vários poetas, escritores e administradores de páginas sobre o universo literário começaram não só a postar suas opiniões políticas e a defender com unhas e dentes seus salvadores da pátria, como também encheram seus espaços virtuais de xingamentos, ironias e desaforos.
Uma das minhas páginas favoritas era de uma artista que consegue (quase escrevi o verbo no passado, mas vou deixar no presente porque ainda tenho esperança) como ninguém aproximar a poesia das pessoas. Na sua voz, os textos ganham vida, se tornam tão mais interessantes... Pois ela parou de fazer o que faz de melhor, dar vida à poesia, e, nos últimos meses, limita-se a comentar sobre política. Outro escritor que aprecio recomendou as páginas de três poetas, afirmando que era uma delícia acompanhar seus posts, repletos de poemas e mineirices. Fui verificar: uma não tinha atualizações há meses e nas outras duas não encontrei poesia; somente impaciência, ideia fixa e intolerância em relação a quem tem posição política contrária à dela. Claro que não curti: a página nem a postura.
E veja bem: não é que postem poesias que tratem da situação político-econômica do Brasil. Não! Isso é coisa muito diferente e seria positivo, necessário até, afinal a arte e a literatura sempre foram um meio de reflexão e crítica sobre a realidade em que vivemos. O problema é que deixaram de postar poesia!  Preferem explorar a temática urnas eletrônicas, apartamentos e cozinhas de luxo, supremos tribunais federais, números de manifestantes nas ruas, mortadela, tubaína, camisas da seleção, presidentes, juízes e ex-presidentes, ministros, bandidos e população, filhos da puta, coxinhas e petralhas. Foi nisso que algumas das minhas páginas favoritas se transformaram! Num emaranhado de xingamentos e obsessões políticas de baixo nível.
O poeta apressado vestiu a camisa vermelha do PT ou a verde-amarela do resto do mundo, não importa, saiu correndo desembestado empunhando sua bandeira rota e desbotada, atirando paus e palavrões dos mais xulos pra todo lado e, com seu dedo em riste, cheio de ira e molhado de cuspe, posicionou-se do seu lado do muro da verdade, apontando, com seu olhar julgador, para o grupo oposto e proferindo palavras de ódio e desprezo.
Só não percebeu um detalhe, o coitado... É que deixou caído, esquecido, bem lá atrás, em meio à poeira e às pisadas arrogantes da manada, o seu caderno de poesia. Aquele... de capa bem velhinha e amassada, com folhas amareladas, que ele carregava sempre consigo, cheio de rabiscos e rascunhos, para que nunca deixasse escapulir o verso que subitamente brotasse em sua mente enquanto passeava tranquilamente por entre as rosas vermelhas do jardim...
Que pena! O poeta esqueceu a poesia. Deixou pra trás o verso, a rima, a metáfora. Não importa a sua ideologia, preferiu a realidade dura, nua, crua e hipócrita, o palavrão, a ofensa, o verbo rasgado e cheio de ira.
O poeta deixou que a crise roubasse seu bem de maior valor: a capacidade de ver o mundo, mesmo que o mundo nefasto da política brasileira, através da lente fantasiosa, terna e muito mais agradável da poesia.


sábado, 26 de setembro de 2015

O sorriso do Papa





Ontem fui ver o Papa Francisco no Central Park, em Nova York. 

O que eu vi?

Vi uma multidão a andar a passos lentos, muito lentos, durante mais de três horas, em uma fila infinita que se movia em zigue-zague, debaixo de sol, até chegar ao parque.

Vi um brasileiro que ficou umas duas horas com a mão direita estendida em direção ao céu azul, a exibir três bandeiras que bailavam ao ritmo do vento – a brasileira, a americana e a do Vaticano. Depois o braço se cansou, ele guardou as bandeiras e, mais tarde, foi obrigado, assim como muitos outros, a gentilmente entregar os bastões para um segurança que os passou recolhendo. Se pau de selfie não era permitido, pau de bandeira também não.

Vi muita gente jovem, senhoras idosas bem vestidas, casais apaixonados, mães com filhos pequenos em carrinhos de bebê, pais com bebês recém-nascidos e uma menina peruana de uns seis anos vestida com roupas típicas do seu país, sempre a brincar com duas minibandeirinhas do Vaticano, cujos bastões eram inofensivos canudinhos. Que bom que estes não foram recolhidos pelo segurança! 

Vi um esquema de segurança acima de qualquer suspeita: a tão criticada cerca de dois metros de altura em torno do Central Park, um incontável número de policiais por todos os lados, helicópteros da polícia a sobrevoar a área todo o tempo, agentes do serviço secreto, detector de metais e uma vistoria das bolsas e sacolas super cuidadosa, sendo que todos os aparelhos eletrônicos deviam estar ligados, até mesmo as máquinas fotográficas, com as quais os seguranças tiravam uma foto para se certificar de que não explodiriam.

Dentro do parque, vi um manto de pessoas a cobrir as pedras e o verde já desbotado do início do outono, algumas sem ter a menor ideia de para onde ir, outras sentadas ou deitadas pelos gramados a ler, a comer ou a conversar, sozinhas ou em grupo, e aquelas aglomeradas próximo à cerca de isolamento perto do caminho por onde o Papa passaria, com cara de daqui-não-saio-daqui-ninguém-me tira.

Vi muitos americanos, mas vi também que a América é latina: ao meu ver, pelo menos cinquenta por cento das pessoas que ali estavam eram de alguma parte da América do Sul. E se orgulhavam disso, gritando em espanhol expressões de exaltação às suas origens e de identificação com o Papa Francis, como carinhosamente é chamado pela comunidade latina - Francis com sotaque espanhol, claro, que é igual ao português.

Vi uma mulher filipina a segurar, além de terços e santinhos, duas fotografias: uma dos seus cinco filhos, vestidos elegantemente com ternos azuis; outra dos seus pais e irmãos, reunidos em torno de uma mesa farta e florida. Esses não puderam estar presentes, mas receberiam também as bênçãos do Papa, pelas mãos daquela mãe, filha e irmã amorosa. Outra senhora expressou o seu pesar por não tido a mesma grandeza e lamentou ter pensado apenas em si mesma naquele dia. Nesse momento, orei pelas minhas duas filhas e pela minha mãe.

Vi também o brilho nos olhos das pessoas nos minutos que antecediam a chegada do Papa. Todos estavam tão felizes, numa animação sem tamanho que as fazia conversar com estranhos, compartilhar olhares cúmplices e sorrisos e até as mais tímidas a dar pulinhos de excitação.

De repente, vi um mar de mãos e braços se levantarem diante de mim, com suas câmeras, tablets e flashes a dispararem alucinadamente, tentando registrar o momento mais esperado. Sim! Pope Francis tinha chegado, estava lá diante de todos, muito perto, a uns quatro metros de mim, mas eu só via cabeças, mãos e máquinas, a tapar a maior parte do meu campo de visão.

Em três segundos, tudo já tinha acabado. O Papa já tinha passado, já tinha ido embora. Só restava a multidão de vinte mil pessoas que ficara mais de cinco horas esperando e que agora lá estava, parada, a olhar ansiosamente para as suas câmeras na esperança estas tivessem registrado alguma coisa.

A senhora que estava ao meu lado – aquela que se sentiu mal por não ter trazido a foto dos familiares – olhou para mim e disse: “Não vi nada, absolutamente nada.”

Eu, que na hora h também estava de braços estendidos e com o dedo pousado no botão da câmera, pronta para disparar, não consegui fotografar nada, nadinha (a não ser um pedaço de céu azul). No entanto vi, por meio de uma pequena brecha, vi, durante um segundo, não mais do que isso, o rosto do Papa Francisco: o semblante sereno, iluminado, a sorrir, olhando para a multidão de olhos mecânicos a fotografá-lo. Sim! O Papa, sentadinho em seu papa-móvel, sorria, com aquela carinha boa de pessoa simples e do bem. Ele sorria. E nunca mais vou me esquecer daquele momento, do seu rosto calmo e sereno, a sorrir.



PS: Ao sair do parque, espremida no meio da multidão, me sentia um pouco mal pelas pessoas que não tinham visto nada, absolutamente nada. Sem querer, li o que a mulher na minha frente postava nas redes sociais: “os dez segundos mais emocionantes da minha vida”. E pensei: Já valeu a pena então!



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

As últimas palavras




“Afinal, talvez ainda vá escrever outro livro.”, registrou José Saramago em suas anotações de agosto de 2009, pensando no que seria o seu Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, livro inacabado, publicado pela Companhia das Letras no final de 2014.
Mesmo sabendo que a empreitada não passaria de algumas dezenas de páginas, o leitor apaixonado pela obra deste que é um dos maiores escritores da língua portuguesa escuta essas palavras como se um milagre fosse. O milagre da realização do que antes parecia impossível – o prazer indescritível de correr novamente à livraria (sim, até há muito pouco tempo não existiam as livrarias virtuais, muito menos a pré-venda, que deixa reservado na nuvem o exemplar antes mesmo de ele ser lançado), pegar o mais recente livro do autor preferido, aguardar ansiosamente pelo local e momento ideais (solenes o suficiente, dada a grandiosidade do objeto), abri-lo cuidadosamente na primeira página e deliciar-se com as primeiras palavras escritas por aquelas mãos sagradas.
É claro que sempre se pode reler as obras de Saramago como se fosse a primeira vez. Sentidos diversos e surpreendentes não faltarão. Mas o ineditismo do seu novo livro, a leitura virgem, primeira, as inúmeras possibilidades que neste momento se abrem, tudo isso é como reviver. Ressuscitar. Não o autor, que este não morre nunca; o leitor mesmo, que renasce e se revigora totalmente diante do prazer absoluto do momento.

O homem chama-se artur paz semedo e trabalha há quase vinte anos nos serviços de faturação de armamento ligeiro e munições de uma histórica fábrica de armamento conhecida pela razão social de belona s.a., nome que, convém aclarar, pois já são pouquíssimas as pessoas que se interessam por estes saberes inúteis, era o da deusa romana da guerra. Nada mais apropriado, reconheça-se.

Aí estão, logo no início, algumas marcas características do autor. A curta descrição do personagem principal (afinal não é em prol dessas convenções narrativas que o autor escreve), interrompida logo pela informação histórico-mitológica e pelo juízo crítico (Pois... esses saberes outrora valiosos tornaram-se inúteis), além da temática, que já se revela social e atual - a fabricação e o comércio de armas.  
Para aqueles acostumados à linguagem e ao ritmo narrativo do autor, a história desse homem (o homem, sempre o homem!) que vai em busca de um passado humano e transgressor da fábrica de armas vai-se desenvolvendo de maneira muito rápida, assustadoramente veloz. E em pouquíssimo tempo, tem-se a consciência de que faltam apenas poucas páginas, poucas linhas, poucas palavras. O reencontro com a escrita desse autor tão único, tão absolutamente fascinante, tão consciente do tempo cruel em que vivemos começa a chegar ao fim. A voz desse que foi um dos poucos homens contemporâneos a ter coragem de falar o que tem de ser dito está prestes a se calar, levando consigo o seu leitor, acordado do sonho.

, Para lhe falar francamente, tudo me parece demasiado, eu aqui sentado, eu a procurar documentos no arquivo, eu a falar com o adminstrador-delegado da empresa, eu um simples chefe de faturação menor, sem ofício nem benefício, Ofício, tem, não se queixe, Nada que outra pessoa não pudesse fazer

E segue-se um vazio, um silêncio devastador, antecedido do que não chegou a ser suficiente para saciar o desejo do saudoso leitor e seguido de um branco absoluto, angustiante. Essa última unidade de sentido do texto não chega a ser finalizada. O diálogo fica inconcluso. Que mais se diria, por quantas linhas se estenderia, até se atingir o ponto final? O que mais caberia nas páginas, nos capítulos seguintes?
E por que ele teria parado um diálogo que ainda não parece estar terminado justamente nessa fala? O esperado não seria concluir pelo menos a conversa para depois fazer uma pausa e tratar de outros assuntos? O que se passou com o José no momento em que ele decidiu interromper a escrita ou foi levado a isso, levantando-se de sua cadeira, afastando-se o suficiente para não mais voltar ao texto? O vento mais forte que obrigou a fechar a janela? Pilar a aproximar-se carinhosamente chamando para o almoço? Um certo cansaço ou a necessidade de esfriar a cabeça?  O cão que veio em busca de um afago e o desconcentrou? Na verdade, nada disso importa, apenas a certeza do silêncio, de uma página em branco que não pôde ser preenchida e jamais será.
A nós, leitores, nos resta o prazer infinito da releitura, a aprendizagem contínua extraída de tantas lições e a lembrança  do aperto de mão após o autógrafo tão esperado.