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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O baú dos meus sonhos

Heterônimos de Fernando Pessoa, Lívio de Morais




Não bastasse Fernando Pessoa ser um dos maiores poetas de todos os tempos, ser, além dele próprio, vários outros, ter  oferecido à humanidade alguns dos mais belos poemas já escritos, ter elevado a língua de Camões a um nível jamais imaginado, tocar nossos corações e nossa alma com sua poesia, ser porta-voz dos lusófonos apaixonados e indignados espalhados pelo mundo – como se tudo isso fosse pouco, ele ainda nos reservou surpresas inacreditáveis.
Recentemente, quase 80 anos após a sua morte, foi anunciada a descoberta de mais cinco poemas inéditos de Pessoa, que, juntamente com outros textos pouco conhecidos, deram origem ao livro Mensagem e outros poemas sobre Portugal. A publicação será lançada esta semana, em Portugal, pela editora Assírio e Alvim (da qual eu gostaria de ter simplesmente todos os títulos, sem exceção).
Segundo os organizadores, Richard Zenith e Fernando Cabral Martins, os poemas datam do ano de 1906, e o que os fez se convencerem disso foram o tipo de papel utilizado, a caligrafia e o fato de estarem misturados a textos seguramente desse período.
Essa dedução representa uma grande descoberta porque ela modifica a data em que Pessoa começou a escrever oficialmente em português. Criado na África do Sul, seus primeiros textos foram escritos em inglês, tendo ele antes escrito em português apenas eventualmente, quando em viagem a Lisboa (e, mesmo assim, textos para circulação apenas em família). Até a semana passada, pensava-se que os primeiros poemas em português tinham surgido apenas com a vinda definitiva para Portugal (em 1908), mas os recém-descobertos poemas mostram que isso aconteceu dois anos antes.
Uma outra conclusão importante a que se chega é a de que Pessoa, que, aos 17 anos, parecia totalmente alheio à vida portuguesa, na verdade já se mostrava bastante crítico em relação ao seu país, mostrando um tom indignado em relação à monarquia portuguesa e ao cenário político da época. Os poemas chegam mesmo a ser panfletários, dirigindo-se à sociedade portuguesa em tom apelativo. Em um poema inacabado, reivindica: “Abaixo a Guerra, a tirania;/ Abaixo os reis, morra a Igreja.”; e em outro: “Com o governo que temos e o nosso rei/ Somos um carro já sem rodas.”
A descoberta desses poemas inéditos escritos por Pessoa me fizeram lembrar que um dos fatos que mais me impressionava quando estudei literatura em Lisboa foi justamente o tal “espólio de Pessoa”, considerado "tesouro nacional". Falava-se muito desse baú mágico, repleto de manuscritos, cartas, anotações, cadernos, objetos. Nem sei se era uma baú de verdade, mas gosto pensar assim. 
Isso mexia com a minha imaginação. Entrar na Casa Fernando Pessoa, perto do local onde eu morava, ver lá seus humildes pertences, a cama onde faleceu, a escrivaninha na qual ele compôs alguns dos poemas mais belos, a estante com seus livros, passear pelas ruas do Campo de Ourique e por todos os outros lugares por onde ele andou, tudo isso já era fascinante. Imagine então ter acesso aos seus escritos? Qualquer amante da literatura sonha ter uma oportunidade como essa, mergulhar nesse tesouro. E quem se presta a vasculhá-lo e a analisá-lo com cuidado tem a chance de descobrir mais uma raridade. Um olhar atento sobre o seu baú pode dar novo sentido ao que antes talvez tenha sido negligenciado por outros estudiosos.
Dizem que existiram precedentes e, de fato, outros antes de Pessoa escreveram sob pseudônimos ou criaram heterônimos, mas com a intensidade com que Pessoa o fez não. Ao todo, além de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares, foram 73 personagens fictícios e heterônimos criados por ele (Veja a lista aqui). Muitos desses, além de terem suas próprias obras literárias, tinham vida própria, nacionalidade, endereço fixo, características físicas e psicológicas bem definidas. E alguns deles ainda se correspondiam entre si. Qual outro escritor no mundo todo atingiu esse nível de complexidade?
Exatamente por tudo isso é que ainda é possível reinventar Pessoa, encontrando novas informações sobre ele e textos inéditos por ele escritos.  E assim sua biografia vai sendo até hoje reescrita, sua obra sendo reconstruída, e o meu sonho de descobrir esse tesouro encantado sendo sempre alimentado.

PS: Obviamente, há uma biblioteca bastante extensa sobre a obra de Pessoa, mas, para uma leitura fluida e prazerosa sobre a vida e obra desse poeta, recomendo o livro Fernando Pessoa: uma (quase) biografia, do brasileiro José Paulo Cavalcante (Editora Record). Nessa obra, fruto de um trabalho de pesquisa incansável, o autor escreve uma possível biografia de Fernando Pessoa, mesclando fatos reais e a obra literária, nos levando a uma imersão no mundo pessoano de tal maneira que não mais sabemos diferenciar o que é real do que é poesia. 


domingo, 23 de março de 2014

Todos os dias são meus


Pai e filha, de Michael Dudok

Recentemente, meus irmãos me atribuíram uma tarefa que parecia muito simples, mas que se revelou um tanto quanto complicada: escrever uma pequena biografia sobre o meu pai.
Nas primeiras tentativas, não me saíam da cabeça os versos de Fernando Pessoa, sob o pseudônimo de Alberto Caeiro, que dizem: "Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,/ Não há nada mais simples/ Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte./ Entre uma e outra cousa, todos os dias são meus.". Então me vi na seguinte situação: ou eu seguia Pessoa e resumia a vida de meu pai a duas datas, a um epitáfio, ou eu precisaria de muito mais do que uma simples página, talvez de uma vida toda, para escrever a sua biografia.
Como, por exemplo, reduzir os pais do meu pai, personagens de tantas histórias, a apenas dois nomes? Como não contar que minha avó era uma mulher guerreira, muito brava e que nunca quis ver seu nome repetir-se em alguma das netas porque, para ela, todas as amélias eram sofredoras?  Que meu avô tinha uma doçura encantada, molhava o pão no vinho e, quando acabava as refeições, a mesa tinha de ser desfeita rapidamente porque os restos de comida o incomodavam? Essas memórias têm de ser simplesmente apagadas de uma biografia como a que eu me prestava a escrever?
Como omitir que meu pai foi uma criança quieta, de poucas palavras, que brincava sozinho no canto do quintal? Que começou a trabalhar aos oito anos de idade para ajudar em casa e que sentiu muita falta do pai quando este partiu, fechando-se ainda mais em seu próprio mundo? 
Como não mencionar que ele mentiu sobre sua data de nascimento para que a minha mãe não soubesse que ia se casar com um rapaz mais jovem? Que ele, ainda um pretendente, olhava a foto dela afixada em um mural e a enchia de beijos apaixonados? E que estávamos todos justamente falando disso e rindo muito quando o telefone tocou trazendo a notícia de sua morte? E sobre o silêncio que se seguiu, não posso falar?
Como não comentar a força que sua presença paterna representava? O respeito, a prontidão, o temor com que seguíamos suas ordens, mesmo depois de adultos? 
Como não dizer que meu pai, sempre muito calado, era na verdade um contador de histórias? Que, quando começava a rememorar fatos da infância e da adolescência, os contava com muito gosto, enfaticamente, saindo-se sempre vencedor, herói nas aventuras da vida? 
Que, aos domingos, antes do almoço, colocava Altemar Dutra e Nelson Gonçalves no toca-fitas e assoviava as melodias, às vezes cantava baixinho?
Que, ao ver um recém-nascido, o segurava pelos dedinhos, levantando-o bem alto, para desespero da mãe?
Que, ao despedir-se de mim no dia em que se mudou, repetiu a mesma frase que dissera à minha irmã vinte anos atrás, pedindo-me para não o decepcionar? 
Que era muito emotivo? Que era sempre com lágrimas nos olhos que ele passava as noites de Natal e que recebia as boas novas?
Que, quando, sem mais nem menos, perguntei quantos netos ele tinha, ele matou logo a charada e percebeu que mais um estava caminho?
Que, quando nos encontramos na UTI de um hospital pela última vez, eu tinha na barriga uma nova vida?
Que, naquele dia em que até os céus choravam a sua morte, um cortejo longo e lento se arrastou pelas ruas sinuosas da cidade? 
Que a saudade, a falta, o vazio, o silêncio, principalmente nos momentos em que se precisa de um conselho, de uma palavra, são doloridos demais? 
Que minha filha chorou copiosamente quando soube que o vovô queria muito conhecê-la, mas não foi possível? Que a história se repetiu?
Tantas palavras, tantas lembranças que completariam a biografia do meu pai… Mas tenho de me limitar a menos de uma página, me ater a algumas poucas datas e friamente cumprir a tarefa. 
Só me resta guardar a verdadeira biografia do meu pai dentro de mim e pensar que, como nos versos de Pessoa, todos os outros dias são meus. 


Ouça o poema Biografia, de Fernando Pessoa, aqui, e assista ao curta de animação do qual foi retirada a imagem deste post aqui.





domingo, 16 de fevereiro de 2014

De livros e cidades

Bibliothèque, Maria Helena Vieira da Silva, Lisboa



A meu ver, uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é por meio da literatura nela e sobre ela produzida. Guias de viagem, mapas, ensaios, sites, blogs, textos informativos podem ser úteis logo nos primeiros passos da viagem, mas a literatura nos faz enxergar a realidade de uma forma muito mais rica, autêntica, profunda.
Quando morei em Lisboa, Portugal, os livros mudaram totalmente a minha percepção sobre a cidade das sete colinas, repleta de histórias, mitos e símbolos.
Um exemplo disso é a cena final de uma obra clássica da literatura portuguesa, Os Maias. Nela, Eça de Queiroz narra um passeio dos amigos Carlos da Maia e João da Ega pelo bairro do Chiado, em Lisboa. Eles observam os jovens portugueses usando trajes totalmente inapropriados para o seu tipo físico: "o aspecto molengão dos rapazes que por ali passavam, vestindo segundo os figurinos franceses, mas de um modo servil, exagerado e ridículo, sem nenhuma originalidade". Se Eça tivesse discorrido de maneira objetiva e ensaísta sobre essa aspecto caricatural do português à época, sobre a subjugação de Portugal a França no domínio cultural e comportamental, não teria tão eficazmente atingido seu objetivo. Mas, ao invés de explicar a realidade, ele a coloca diante de nossos olhos, fazendo-nos compreender o cenário absurdo, a quase aberração que acaba por se tornar esse voltar-se incessantemente para o outro em busca de autoafirmar-se, de encontrar a própria identidade. Na verdade, melhor seria se olhassem para si mesmos. Assim enxergariam que "o que se mantinha genuíno em Lisboa era o alto da cidade, com seu castelo, o casario, os palacetes, os conventos, as igrejas", como os amigos acabam por concluir.
No campo da poesia, deveria ser obrigatória para quem visita Lisboa a leitura dos versos de Cesário Verde, com sua descrição realista da cidade, caracterizada de uma maneira tão visual e plástica que o levou a ficar conhecido como "o poeta da cidade de Lisboa". O que dizer de Fernando Pessoa então? Certa vez, em uma aula de história portuguesa que timidamente cursei em uma salinha escura de um daqueles prédios absolutamente deslumbrantes do Chiado, o professor Oliveira Martins, especialista em história portuguesa, disse mais ou menos assim: Ao lermos "O sino da minha aldeia, dolente na tarde calma, cada tua badalada soa dentro da minha alma", sabemos que Pessoa está a referir-se àquela igreja situada bem ali na esquina da rua onde estamos agora. Não me lembro do nome da igreja, mas lembro-me muito bem da emoção que senti, e talvez aqueles sinos tenham tocado naquele momento.
Na verdade, não tenho assim tanta certeza da utilidade dos guias de viagem. Acho que, da próxima vez, vou inverter essa ordem e chegar, quem sabe, a Madrid com o Dom Quixote na algibeira.

E você, já teve sua impressão sobre uma cidade influenciada pela leitura de algum livro, de alguma poesia? Pode ser uma música também. Eu mesma curti muito mais viajar pela Andaluzia ouvindo Paco de Lucia tocar Sobre dos aguas.

No próximo post, tratarei de dois livros que me ensinaram a entender um pouco mais sobre a cidade de Nova York, esse meu novo paradeiro. Não percam!