Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Terá sido o 9/11 obra de ficção?

As Torres Gêmeas, Banksy

Apresento dois livros cujos temas principais não são o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, que hoje completa 13 anos, mas que abordam essa temática de maneira tão especial que acabam por figurar nas listas dos livros sobre o assunto: Forever, de Pete Hamill, e Homem no escuro, de Paul Auster. 
Já escrevi sobre Forever aqui, mas esse é daqueles livros que jamais se esgotam em um único comentário. Para quem não se lembra, o romance conta a história do irlandês Cormac, que se muda para Manhattan no século XVIII e não consegue mais sair, sendo obrigado a viver na cidade para sempre. O dom da imortalidade, a ele possibilitado por estratégias fantásticas da narrativa, faz com que o personagem viva na cidade do século XVIII à contemporaneidade, assistindo a importantes períodos da História norte-americana, muitas vezes neles tendo participação ativa. Um detalhe que não comentei no post citado é que o ataque às Torres Gêmeas é decisivo em sua escrita. O próprio autor conta, em uma entrevista publicada no final do livro, que terminou de o escrever justamente no dia 10 de setembro de 2001. Entregou os originais ao editor e, no dia seguinte, estava planejando jantar em um restaurante tradicional da cidade para comemorar o término de tal empreitada quando tudo aconteceu. Ele, que havia narrado acontecimentos decisivos na história da cidade, não tinha outra alternativa a não ser adiar a publicação do livro e trabalhar nele por mais um ano para que pudesse inserir aquele que era um dos  acontecimentos mais marcantes da história. 
O personagem, que, a essa altura da narrativa, morava nas proximidades do World Trade Center e tinha uma pessoa próxima a ele trabalhando lá, desespera-se ao assistir, do seu apartamento, ao choque do primeiro avião contra o prédio e se dirige para o local, na tentativa de obter alguma informação. A partir daí, ele descreve o cenário de uma maneira bastante realista e coloca diante dos nossos olhos o quadro que se pintou: o medo, o barulho, o tumulto, a fumaça, a poeira, a procura, a dúvida, a incompreensão, o vazio, o caos. Duas imagens me impressionaram: a fumaça que se espalhou pela cidade e cujo cheiro se sentia dias depois e a massa humana atravessando a pé a Ponte do Brooklyn na voltar para casa, tendo em vista que não havia transporte público. A procura pelos desaparecidos também é chocante; o próprio Cormac reencontra a namorada dias depois, internada em um hospital, sem identidade. 
Enquanto Hamill mergulha de cabeça nesse fato nos últimos capítulos de seu livro, Paul Auster, em Man in the dark (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2008, com o título de Homem no escuro), faz absolutamente o contrário: a mente insone de um senhor de idade cria uma história que se passa em um cenário em que a Guerra no Iraque não aconteceu, muito menos o ataque de 11 de Setembro. As Torres Gêmeas estão intactas, marcando presença absoluta e soberana no horizonte da cidade. No entanto, por outro lado, os Estados Unidos vivem uma guerra civil como nunca antes, consequência da eleição de George W. Bush, colocando em risco o sistema federativo da nação. O inimigo, nesse caso, não vem de fora; é o próprio país e as escolhas políticas de seu povo, levando-nos a refletir sobre os problemas da nação norte-americana sob um outro ponto de vista. 
Duas maneiras igualmente brilhantes de tratar um acontecimento de tamanha gravidade: explorando-o intensamente, para viver o luto e aliviar a dor; ou negando-o totalmente, para imaginar a sua não existência e, assim, avaliar a grandiosidade do ocorrido. Duas excelentes leituras!

PS: Para mais sugestões de livros e filmes sobre o 9/11, vá aqui e aqui. Em inglês e mais atual: aqui. Boas leituras!! 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O baú dos meus sonhos

Heterônimos de Fernando Pessoa, Lívio de Morais




Não bastasse Fernando Pessoa ser um dos maiores poetas de todos os tempos, ser, além dele próprio, vários outros, ter  oferecido à humanidade alguns dos mais belos poemas já escritos, ter elevado a língua de Camões a um nível jamais imaginado, tocar nossos corações e nossa alma com sua poesia, ser porta-voz dos lusófonos apaixonados e indignados espalhados pelo mundo – como se tudo isso fosse pouco, ele ainda nos reservou surpresas inacreditáveis.
Recentemente, quase 80 anos após a sua morte, foi anunciada a descoberta de mais cinco poemas inéditos de Pessoa, que, juntamente com outros textos pouco conhecidos, deram origem ao livro Mensagem e outros poemas sobre Portugal. A publicação será lançada esta semana, em Portugal, pela editora Assírio e Alvim (da qual eu gostaria de ter simplesmente todos os títulos, sem exceção).
Segundo os organizadores, Richard Zenith e Fernando Cabral Martins, os poemas datam do ano de 1906, e o que os fez se convencerem disso foram o tipo de papel utilizado, a caligrafia e o fato de estarem misturados a textos seguramente desse período.
Essa dedução representa uma grande descoberta porque ela modifica a data em que Pessoa começou a escrever oficialmente em português. Criado na África do Sul, seus primeiros textos foram escritos em inglês, tendo ele antes escrito em português apenas eventualmente, quando em viagem a Lisboa (e, mesmo assim, textos para circulação apenas em família). Até a semana passada, pensava-se que os primeiros poemas em português tinham surgido apenas com a vinda definitiva para Portugal (em 1908), mas os recém-descobertos poemas mostram que isso aconteceu dois anos antes.
Uma outra conclusão importante a que se chega é a de que Pessoa, que, aos 17 anos, parecia totalmente alheio à vida portuguesa, na verdade já se mostrava bastante crítico em relação ao seu país, mostrando um tom indignado em relação à monarquia portuguesa e ao cenário político da época. Os poemas chegam mesmo a ser panfletários, dirigindo-se à sociedade portuguesa em tom apelativo. Em um poema inacabado, reivindica: “Abaixo a Guerra, a tirania;/ Abaixo os reis, morra a Igreja.”; e em outro: “Com o governo que temos e o nosso rei/ Somos um carro já sem rodas.”
A descoberta desses poemas inéditos escritos por Pessoa me fizeram lembrar que um dos fatos que mais me impressionava quando estudei literatura em Lisboa foi justamente o tal “espólio de Pessoa”, considerado "tesouro nacional". Falava-se muito desse baú mágico, repleto de manuscritos, cartas, anotações, cadernos, objetos. Nem sei se era uma baú de verdade, mas gosto pensar assim. 
Isso mexia com a minha imaginação. Entrar na Casa Fernando Pessoa, perto do local onde eu morava, ver lá seus humildes pertences, a cama onde faleceu, a escrivaninha na qual ele compôs alguns dos poemas mais belos, a estante com seus livros, passear pelas ruas do Campo de Ourique e por todos os outros lugares por onde ele andou, tudo isso já era fascinante. Imagine então ter acesso aos seus escritos? Qualquer amante da literatura sonha ter uma oportunidade como essa, mergulhar nesse tesouro. E quem se presta a vasculhá-lo e a analisá-lo com cuidado tem a chance de descobrir mais uma raridade. Um olhar atento sobre o seu baú pode dar novo sentido ao que antes talvez tenha sido negligenciado por outros estudiosos.
Dizem que existiram precedentes e, de fato, outros antes de Pessoa escreveram sob pseudônimos ou criaram heterônimos, mas com a intensidade com que Pessoa o fez não. Ao todo, além de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares, foram 73 personagens fictícios e heterônimos criados por ele (Veja a lista aqui). Muitos desses, além de terem suas próprias obras literárias, tinham vida própria, nacionalidade, endereço fixo, características físicas e psicológicas bem definidas. E alguns deles ainda se correspondiam entre si. Qual outro escritor no mundo todo atingiu esse nível de complexidade?
Exatamente por tudo isso é que ainda é possível reinventar Pessoa, encontrando novas informações sobre ele e textos inéditos por ele escritos.  E assim sua biografia vai sendo até hoje reescrita, sua obra sendo reconstruída, e o meu sonho de descobrir esse tesouro encantado sendo sempre alimentado.

PS: Obviamente, há uma biblioteca bastante extensa sobre a obra de Pessoa, mas, para uma leitura fluida e prazerosa sobre a vida e obra desse poeta, recomendo o livro Fernando Pessoa: uma (quase) biografia, do brasileiro José Paulo Cavalcante (Editora Record). Nessa obra, fruto de um trabalho de pesquisa incansável, o autor escreve uma possível biografia de Fernando Pessoa, mesclando fatos reais e a obra literária, nos levando a uma imersão no mundo pessoano de tal maneira que não mais sabemos diferenciar o que é real do que é poesia. 


quinta-feira, 13 de março de 2014

Sophia: mar de poesia

Foto retirada daqui

Recentemente, assisti ao documentário O nome das Coisas, sobre uma das maiores poetas portuguesas de todos os tempos: Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)(assistir aqui).
Produzido por uma rede de televisão portuguesa, a RTP, no ano de 2007, o filme apresenta uma série de depoimentos (de pessoas da família, amigos e especialistas em sua obra), além de imagens da vida pessoal e pública de Sophia, permeados por sua própria voz, a tecer comentários e a declamar poemas. A poeta e sua obra são tratados de uma maneira tão cuidadosa e sensível que me levou a querer reler essa poesia repleta de vida, força, religiosidade, mar.
Em certa ocasião, perguntada sobre como se tornou poeta, Sophia afirmou que, ainda quando criança, em uma viagem de carro, intuiu a natureza do mistério da poesia ao reparar que a janela pela qual ela olhava coincidia, em alguns momentos, com as janelas das casas. Disse: "Pensei que talvez fosse isso: as palavras às vezes coincidiam com os seus significados, para depois deixar de coincidir outra vez." Essa reflexão explica, para mim, muito de sua poesia, que nos mostra uma série de imagens do real, as coincidências, que rapidamente identificamos, para depois nos encantar com o irreal, as "descoincidências", que nos surpreendem.
O mar era seu tema preferido. As lembranças da praia onde passava as férias quando criança, os mergulhos no fundo do mar de olhos abertos já depois de adulta, a fascinação pelo mar da Grécia, tudo isso está muito evidente em seus poemas:

Mar sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

(Dia do Mar, 1947)


Casa branca

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
do milagre das coisas que eram minhas.

(Poesia I, 1944)


Navio naufragado

Vinha de um mundo
Sonoro, nítido e denso
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.

É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes. 

(Dia do mar, 1947)

O mar era para ela não só objeto de contemplação; com ele, ela estabelecia uma relação especial. Em um outro documentário, de 1969, o cineasta português João César Monteiro mostra Sophia na praia com seus filhos, em um barco em alto-mar, nadando entre rochedos que formam grutas, em uma atitude de total intimidade e entrega. Entende-se por que imaginou as seguintes palavras para sua inscrição final:


Inscrição

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar

(O livro sexto, 1962)

Sophia também era muito politizada e tratava de temas ligados a uma realidade mais áspera. A limpidez e a transparência do mar talvez a fizessem aceitar menos o mundo dos homens. Por isso, está presente em seus versos uma crítica social bastante forte:

A paz sem vencedor e sem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que voz pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo 
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que voz pedimos.

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

(Dual, 1962)


As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes 
De matar galinhas
Porém são capazes de comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."

Ó vendilhões do tempo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheiros de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

(Livro sexto, 1962)


Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido 
Como o florir das ondas ordenadas.

(Coral, 1950)



A liberdade, privada aos portugueses durante grande parte do século XX, também é tema recorrente em sua poesia. Assim como o 25 de abril de 1974, o dia da Revolução que pôs fim à ditadura de Salazar:

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
Em em nós germinará a sua fala.


25 de abril

Esta é a madrugada que eu esperava
É o dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

(O nome das coisas, 1977)

Ao final do documentário, as palavras do amigo e também poeta Manuel Alegre arrematam a essência dessa mulher. Sophia, já muito doente, pede a ele que diga alguns poemas. Ela o acompanha, mas, sem forças, apenas murmurando a melodia de cada verso, o canto. O corpo não aguenta mais, mas a essência da poesia, o ritmo, continua, vivo.

Informações complementares, a quem possa interessar: 
Além de poesia, Sophia publicou contos, histórias para crianças, ensaios e peças de teatro. 
Sophia ganhou vários prêmios ainda em vida, como o Prêmio Camões, em 1999, e o Rainha Sophia de Poesia Ibero-Americana, em 2003. 
Miguel de Sousa Tavares, escritor português bastante lido no Brasil, autor de Equador e Rio das Flores, é seu filho.  
Maria Bethânia declama alguns de seus poemas no disco Mar de Sophia, de 2007, cujo repertório tem como tema, claro, o mar.

segunda-feira, 10 de março de 2014

A onda

Ocean Stray, Carlin Blahnik


Estou convencida de que alguns livros escolhem os leitores. Foi assim com Wave (A onda), de Sonali Deraniyagala, publicado nos Estados Unidos pela Alfred A. Knopf e em Portugal pela Vogais. 
Primeiro chegou ao meu e-mail por meio de um jornal. Depois alguém o indicou em uma página do Facebook. Sempre que eu entrava em alguma livraria, lá estava ele, em posição de destaque, entre os mais lidos (sim, é um daqueles best sellers dos quais os formados em Letras como eu fogem como diabo da cruz). Colocou-se diante de mim, veio atrás, insistiu. Quando eu me escondia atrás da prateleira daquelas obras que ninguém lê, ele aparecia, não sei como, insinuando-se para mim. Até que não teve jeito: me rendi à capa preta, ao título curto, ao tom poético que parecia não combinar com o assunto.
Em resumo, Wave é a autobiografia de uma sobrevivente ao tsunami que devastou a costa do Sri Lanka em dezembro de 2004, no qual ela perdeu os pais, o marido e os dois filhos pequenos

Ponto final


Vazio


Silêncio

O que mais dizer sobre uma situação como essa? O que escrever? O que pensar? O que comentar sobre o sofrimento dessa mulher que inesperadamente perdeu as pessoas mais importantes em sua vida, incluindo os dois filhos, ainda crianças? Eu poderia parar este post por aqui. Nada que eu escreva vai expressar a tristeza, a dor, a força trágica de um acontecimento como esse. Nenhuma tentativa de me colocar em seu lugar vai me permitir descrever a sensação de vazio dessa mulher que, por algum motivo que foge à compreensão, precisa continuar vivendo.
Posso começar dizendo o quão impressionante é a descrição  inicial do momento em que o tsunami acontece: a sensação de que algo não vai bem (o mar muito mais próximo do hotel do que o usual), a tentativa de fuga, a correria do hotel com a família, o desejo de proteger os filhos, o olhar para trás e ver a água se aproximando, a água tomando conta de tudo, a perda do controle, a perda da consciência…  
Quando pensamos que isso basta, que pior não pode acontecer, Sonali acorda e se dá conta, meu Deus!, de que está viva. Essa mulher é então tomada por um terrível sentimento de culpa. Por que só ela teria sobrevivido? Sobreviver era a maior punição que ela poderia receber. O maior desejo era de que aquela onda gigante a tivesse levado para sempre também. 
Não há corpos para chorar, velar, enterrar. Assim como Antígona, a quem foi proibido o ritual de enterrar seus mortos, impedindo suas almas de fazer a travessia para o outro mundo, de Sonali é tirado o direito da despedida, impedindo sua alma de fixar-se, de encontrar-se no mundo de cá.
Para ela, só há uma saída: buscar evidências, necessárias mas dolorosas, da vida. Algo em que se agarrar para continuar a quase impossível tarefa de viver. E isso ela vai encontrar na casa da família em Londres, onde tudo está intacto: as roupas, os pertences, os brinquedos, o quintal, o escritório, as fotos, os cheiros. Tudo isso traz à memória imagens muito vivas de todos e é assim, ao meu ver, que ela começa a ensaiar alguma recuperação.
A outra maneira? A escrita. Escrever sobre o que se passou foi para Sonali uma estratégia de sobrevivência. Registrar tudo em detalhes foi a maneira que ela encontrou de lembrar, velar seus mortos e recomeçar. Seu livro é a concretização do passado perdido, necessário para que o presente se torne palpável novamente, e o fututo possível, qualquer que ele seja. A escrita como salvadora - o divisor de águas entre a morte e a vida.
Penso que Wave veio até mim para me dar uma lição e me mandar calar. No momento em que a adaptação a uma nova vida, os problemas quotidianos e a saudade representavam  minha tempestade pessoal, esse livro foi como uma onda a me derrubar e a mostrar que, na verdade, eu precisava dar graças por tudo: pela vida, a minha, a das minhas filhas e do meu marido. O resto se resolve.
Obrigada, Sonali.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Dois livros, duas cidades



Li em algum lugar que é preciso dar à cidade de Nova York pelo menos cinco anos para que ela o aceite, lhe permita fazer parte dela, ser quase um nova-iorquino. Morando aqui há menos de dois anos, ainda me encontro em uma espécie de limbo: não sou local, não sou turista. Quem sou, afinal?
Nessa busca por algum sentimento de identidade e confiante na capacidade salvadora da literatura, me aventurei na leitura de dois livros escritos na cidade, sobre a cidade, por moradores da cidade: The New York Trilogy (A Trilogia de Nova York), de Paul Auster, e Forever (Para sempre), de Pete Hamill.
A Trilogia, composta pelos livros City of Glass (Cidade de Vidro), 1985, Ghosts (Fantasmas), 1986, e The Locked Room (O Quarto Fechado), 1986, foi publicada pela Penguin Books e, no Brasil, pela Companhia das Letras. Nessas narrativas, conexas entre si, o cenário é a cidade de Nova York, cujas ruas e avenidas são percorridas de maneira incansável pelos personagens. O que mais me chama a atenção nos três romances é a releitura que o autor faz das histórias de detetive, havendo uma total desconstrução das características básicas desse gênero. No segundo livro, por exemplo, o detetive Blue é contratado para espionar um homem, Black, e, para observá-lo, aluga um apartamento em frente ao prédio onde ele vive. Black, porém, passa horas a fio escrevendo, mal se levanta para comer e, nas raras vezes em que sai de casa, limita-se a fazer pequenas compras nos arredores. Essa rotina entediante de espionagem faz com que Blue, ao olhar por horas a fio para o outro, acabe voltando-se para dentro de si próprio e comece a rever sua profissão, seu relacionamento amoroso, suas crenças, sua própria vida. Auster explora de maneira bastante criativa essa desconstrução, mesclando descrições das ruas da cidade, seus cruzamentos, edifícios e monumentos com o conflito psicológico dos personagens. 
Quando comentei, toda orgulhosa, que tinha terminado a leitura da Trilogia, minha professora de inglês, Penny, nova-iorquina apaixonada pela cidade, mostrou-se bastante intrigada, para não dizer decepcionada. Por que Paul Auster?   E me sugeriu Forever (Para sempre), de Pete Hamill. Esse é a epopeia de Cormac O'Connor, irlandês que vem para a cidade no século XVIII, no contexto de imigração massiva desse povo para os Estados Unidos em busca de sobrevivência (Sabe-se que Nova York hoje tem mais irlandeses do que Dublim, a capital da Irlanda). Uma particularidade difere esse personagem do imigrante comum: por um motivo que os leitores descobrirão por si próprios, ele recebe o dom da imortalidade e não consegue mais partir da ilha de Manhattan, onde fica para sempre. A saga de Cormac começa em seu núcleo familiar, na Irlanda, descrita de maneira sentimental e nostálgica; continua pela árdua experiência da viagem por mar até Nova York; e passa por diversos episódios da história dos Estados Unidos, como a Guerra Civil, a epidemia de cólera, a formação da República, até o ataque às Torres Gêmeas. Por meio dessa aventura atemporal, aprendemos a história da cidade, sua formação e composição, enxergamos uma Nova York jamais imaginada, muito menos glamourosa que a atual, sem os tão marcantes arranha-céus. 
O que concluir, então, dessa minha aventura literária? Paul Auster deixa claro o seu amor pela cidade, tornando-a protagonista de suas narrativas, indo a fundo em seu projeto literário de misturar o mundo interior com o exterior. Com ele, aprendi muito sobre a literatura aqui produzida. Já com Pete Hammil, do qual, confesso, quase desisti lá pela metade, aprendi mais. Por meio da epopeia fantástica de Cormac, conheci a essência deste lugar, compreendi a aura que sobre ela paira, senti o mau-cheiro de épocas passadas, passei a ouvir o sussurro de seus antepassados a cada esquina, em cada edifício, em cada árvore. Após ler Forever, ando por essas avenidas, atravesso esses parques com a sensação de que sei um segredo, daqueles  seculares, compartilhado apenas por aqueles que vivem aqui há muito tempo, há muito mais de cinco anos.
Não sei se me lembrarei dos fantasmas de Paul Auster durante muito tempo. Mas da imortalidade de Cormac  e de seus ensinamentos me lembrarei… forever!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

De livros e cidades

Bibliothèque, Maria Helena Vieira da Silva, Lisboa



A meu ver, uma das melhores maneiras de conhecer uma cidade é por meio da literatura nela e sobre ela produzida. Guias de viagem, mapas, ensaios, sites, blogs, textos informativos podem ser úteis logo nos primeiros passos da viagem, mas a literatura nos faz enxergar a realidade de uma forma muito mais rica, autêntica, profunda.
Quando morei em Lisboa, Portugal, os livros mudaram totalmente a minha percepção sobre a cidade das sete colinas, repleta de histórias, mitos e símbolos.
Um exemplo disso é a cena final de uma obra clássica da literatura portuguesa, Os Maias. Nela, Eça de Queiroz narra um passeio dos amigos Carlos da Maia e João da Ega pelo bairro do Chiado, em Lisboa. Eles observam os jovens portugueses usando trajes totalmente inapropriados para o seu tipo físico: "o aspecto molengão dos rapazes que por ali passavam, vestindo segundo os figurinos franceses, mas de um modo servil, exagerado e ridículo, sem nenhuma originalidade". Se Eça tivesse discorrido de maneira objetiva e ensaísta sobre essa aspecto caricatural do português à época, sobre a subjugação de Portugal a França no domínio cultural e comportamental, não teria tão eficazmente atingido seu objetivo. Mas, ao invés de explicar a realidade, ele a coloca diante de nossos olhos, fazendo-nos compreender o cenário absurdo, a quase aberração que acaba por se tornar esse voltar-se incessantemente para o outro em busca de autoafirmar-se, de encontrar a própria identidade. Na verdade, melhor seria se olhassem para si mesmos. Assim enxergariam que "o que se mantinha genuíno em Lisboa era o alto da cidade, com seu castelo, o casario, os palacetes, os conventos, as igrejas", como os amigos acabam por concluir.
No campo da poesia, deveria ser obrigatória para quem visita Lisboa a leitura dos versos de Cesário Verde, com sua descrição realista da cidade, caracterizada de uma maneira tão visual e plástica que o levou a ficar conhecido como "o poeta da cidade de Lisboa". O que dizer de Fernando Pessoa então? Certa vez, em uma aula de história portuguesa que timidamente cursei em uma salinha escura de um daqueles prédios absolutamente deslumbrantes do Chiado, o professor Oliveira Martins, especialista em história portuguesa, disse mais ou menos assim: Ao lermos "O sino da minha aldeia, dolente na tarde calma, cada tua badalada soa dentro da minha alma", sabemos que Pessoa está a referir-se àquela igreja situada bem ali na esquina da rua onde estamos agora. Não me lembro do nome da igreja, mas lembro-me muito bem da emoção que senti, e talvez aqueles sinos tenham tocado naquele momento.
Na verdade, não tenho assim tanta certeza da utilidade dos guias de viagem. Acho que, da próxima vez, vou inverter essa ordem e chegar, quem sabe, a Madrid com o Dom Quixote na algibeira.

E você, já teve sua impressão sobre uma cidade influenciada pela leitura de algum livro, de alguma poesia? Pode ser uma música também. Eu mesma curti muito mais viajar pela Andaluzia ouvindo Paco de Lucia tocar Sobre dos aguas.

No próximo post, tratarei de dois livros que me ensinaram a entender um pouco mais sobre a cidade de Nova York, esse meu novo paradeiro. Não percam!