quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Confusas estações

Four seasons, Luiza Vizoli

Essa energia primaveril que desperta no hemisfério sul nessa época do ano, em oposição à chegada do outono em terras do norte, onde me encontro, causa-me um inexplicável desconforto, uma certa sensação de deslocamento, uma dessintonia.
Verde, rosa e amarelo vibrantes. O azul do céu, sobre extensos gramados, águas transparentes e cristalinas - cenário perfeito para o desabrochar das pétalas, o inchar dos frutos, a brincadeira barulhenta dos passarinhos. O raio de sol toca a água do rio, criando um reflexo, um brilho que inebria e cega. Pele à mostra sentindo o acarinhar da brisa fresca e nova. Margaridas, tulipas, begônias. Peras, caquis, polpas suculentas. Desejo de ar livre, sol no rosto, borboletas.
Tudo isso é muito animador e, por meio das redes sociais, povoa meus pensamentos. Mas o que se vive por aqui nos Estados Unidos neste momento é a chegada de uma estação muito diferente. Novas  cores estão por vir - alaranjado, vermelho vinho, marrom, dourado. A cor sépia da fotografia envelhecida pelo passar do tempo. O céu muitas vezes cinza, o ar frio, exigindo já uma camada de lã sobre a pele. Galhos retorcidos, terra ressecada, folhas bailarinas em seu salto suave em direção ao nada. O aroma a abóboras, maçãs e especiarias se espalha por toda parte. Vontade de tomar leite com açúcar queimado, substituído, por pura conveniência, pelo leite insosso do Starbucks. Um desejo de recolhimento toma conta de todos, vontade de estar dentro, no aconchego do lar ou de um café, na companhia de um bom livro. 
A Primavera é uma menina ágil correndo pelos campos, molhando os pés no riacho, colhendo flores, cheia de atividade e muita vida pela frente. Suas pernas têm ânsia de movimento. Avançam sempre, sem parar. 
Já o outono é um idoso sentado no banco da praça, protegendo-se com seu cachecol, repousando os pés cansados de aventuras passadas, o olhar perdido e cheio de nostalgia, à espera do tempo, o seu tempo. 
A primavera é o encontro.
O outono é a despedida.
A primavera é o broto.
O outono, o maduro.
A primavera é o som do piano de Ludovico Einaudi
O outono é a voz de Frank Sinatra cantando Autumn Leaves (Folhas de Outono). 
Dois cenários que se misturam, desarmônicos, em minha mente… 


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Terá sido o 9/11 obra de ficção?

As Torres Gêmeas, Banksy

Apresento dois livros cujos temas principais não são o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, que hoje completa 13 anos, mas que abordam essa temática de maneira tão especial que acabam por figurar nas listas dos livros sobre o assunto: Forever, de Pete Hamill, e Homem no escuro, de Paul Auster. 
Já escrevi sobre Forever aqui, mas esse é daqueles livros que jamais se esgotam em um único comentário. Para quem não se lembra, o romance conta a história do irlandês Cormac, que se muda para Manhattan no século XVIII e não consegue mais sair, sendo obrigado a viver na cidade para sempre. O dom da imortalidade, a ele possibilitado por estratégias fantásticas da narrativa, faz com que o personagem viva na cidade do século XVIII à contemporaneidade, assistindo a importantes períodos da História norte-americana, muitas vezes neles tendo participação ativa. Um detalhe que não comentei no post citado é que o ataque às Torres Gêmeas é decisivo em sua escrita. O próprio autor conta, em uma entrevista publicada no final do livro, que terminou de o escrever justamente no dia 10 de setembro de 2001. Entregou os originais ao editor e, no dia seguinte, estava planejando jantar em um restaurante tradicional da cidade para comemorar o término de tal empreitada quando tudo aconteceu. Ele, que havia narrado acontecimentos decisivos na história da cidade, não tinha outra alternativa a não ser adiar a publicação do livro e trabalhar nele por mais um ano para que pudesse inserir aquele que era um dos  acontecimentos mais marcantes da história. 
O personagem, que, a essa altura da narrativa, morava nas proximidades do World Trade Center e tinha uma pessoa próxima a ele trabalhando lá, desespera-se ao assistir, do seu apartamento, ao choque do primeiro avião contra o prédio e se dirige para o local, na tentativa de obter alguma informação. A partir daí, ele descreve o cenário de uma maneira bastante realista e coloca diante dos nossos olhos o quadro que se pintou: o medo, o barulho, o tumulto, a fumaça, a poeira, a procura, a dúvida, a incompreensão, o vazio, o caos. Duas imagens me impressionaram: a fumaça que se espalhou pela cidade e cujo cheiro se sentia dias depois e a massa humana atravessando a pé a Ponte do Brooklyn na voltar para casa, tendo em vista que não havia transporte público. A procura pelos desaparecidos também é chocante; o próprio Cormac reencontra a namorada dias depois, internada em um hospital, sem identidade. 
Enquanto Hamill mergulha de cabeça nesse fato nos últimos capítulos de seu livro, Paul Auster, em Man in the dark (publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2008, com o título de Homem no escuro), faz absolutamente o contrário: a mente insone de um senhor de idade cria uma história que se passa em um cenário em que a Guerra no Iraque não aconteceu, muito menos o ataque de 11 de Setembro. As Torres Gêmeas estão intactas, marcando presença absoluta e soberana no horizonte da cidade. No entanto, por outro lado, os Estados Unidos vivem uma guerra civil como nunca antes, consequência da eleição de George W. Bush, colocando em risco o sistema federativo da nação. O inimigo, nesse caso, não vem de fora; é o próprio país e as escolhas políticas de seu povo, levando-nos a refletir sobre os problemas da nação norte-americana sob um outro ponto de vista. 
Duas maneiras igualmente brilhantes de tratar um acontecimento de tamanha gravidade: explorando-o intensamente, para viver o luto e aliviar a dor; ou negando-o totalmente, para imaginar a sua não existência e, assim, avaliar a grandiosidade do ocorrido. Duas excelentes leituras!

PS: Para mais sugestões de livros e filmes sobre o 9/11, vá aqui e aqui. Em inglês e mais atual: aqui. Boas leituras!! 

Com o sol a brilhar

Desenho de Kenny Wang, 8 anos de idade

Recentemente, quando perguntada pelo fotógrafo do site Humans of New York sobre qual foi o momento mais feliz de sua vida, uma mulher respondeu que tinha sido um jantar na companhia de sua filha no restaurante que ficava no topo do World Trade Center. 
Aquele que fora objeto de um dos maiores ataques contra a vida humana já ocorridos, relacionado sempre a tragédia, destruição, pensamentos negativos e às piores sensações, foi lembrado por alguém como o cenário do momento mais especial de sua vida.
Quantos outros momentos como esse, felizes, engraçados ou interessantes, não se passaram no WTC? 
Em seu projeto, o arquiteto Minoru Yamasaki já o descrevia como a representação da crença na humanidade, da necessidade humana de dignidade, da crença na cooperação e na bondade.
Sua construção, em 1963, significou a revitalização da parte baixa de Manhattan, o impulsionamento do comércio e dos negócios em uma área antes em franco declínio.
No discurso de inauguração, em 1973, o WTC foi apresentado como um sonho tornado realidade, transformando-se no símbolo do progresso e do futuro.
A sensação de vitória e o sonho de prosperidade com certeza tomaram conta dos primeiros que abriram suas firmas ou foram trabalhar lá.
Sendo as Torres símbolo de conquista e superação, inspirou muitas aventuras. Três paraquedistas saltaram do topo. Em 1974, o equilibrista Phillippe Petit passou de uma torre à outra através de um fio de arame, trazendo imensa atenção popular para as Torres Gêmeas. Em 1977, George Willig burlou a segurança e escalou uma das Torres, realizando essa façanha em três horas em meia. Ao alcançar o topo, policiais o esperavam, mas tal feito com certeza lhe trouxe alguma fama e uma enorme sensação de liberdade (além de uma multa bem salgada para pagar). 
Um remake de King Kong, em 1976, tem as Torres Gêmeas como marca. O pôster de divulgação  mostra o macaco sobre os prédios, com um pé em cada torre, e o Empire State Building, protagonista da primeira versão, mostrado bem pequeno, ao fundo.
Além desses fatos extraordinários, quantos outros acontecimentos comuns, felizes e decisivos, não se passaram no local? Muitos encontros, daqueles que mudam uma vida toda, devem ter ocorrido lá - entre amigos, namorados e casais. Dentro daqueles escritórios, quantas amizades não foram conquistadas? Muitas risadas entre camaradas e confidências entre amigas devem ter se passado lá. Quantas decisões pessoais não devem ter sido tomadas, modificando as vidas de famílias inteiras? 
Um decote mais ousado para chamar a atenção daquele colega que estava sempre no elevador à mesma hora. Paqueras, pedidos de casamento… Muitos buquês de flores entregues… 
O restaurante Janelas do mundo deve ter sido palco para muitos desses momentos especiais. Comemorações, promoções, parabéns. Houve casamentos nas dependências do World Trade Center. Dezessete bebês nasceram lá. Será que algum foi feito lá?!
E os observatórios, que mostravam vistas esplendorosas da cidade, quantos sonhos e promessas não devem ter inspirado?
Muitas crianças devem ter vivido o glorioso dia de ir trabalhar com o pai naquele lugar único. A Plaza, área aberta cercada pelos prédios do complexo, também foi muito frequentada por pequenos viajantes e moradores, que buscavam descanso nos bancos ao redor da fonte.
Quantos abraços, beijos, olhares, mãos dadas, carinhos? Não sei, mas, neste dia em que se completam 13 anos do ataque às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, gosto de pensar que momentos felizes se passaram ali.


King kong 1976 movie poster.jpg

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A biblioteca de Gisela



Certa vez, ao nos mudarmos de casa, além de umas ratazanas que andavam por lá, encontramos um sabonete pela metade, uma cortina velha, um vaso de flor vazio, uma fotografia 3x4, uma caixa de revistas antigas e - por mais difícil que seja de acreditar - uma pequena biblioteca. Isso mesmo: em um dos quartos, bem no fundo, à esquerda, havia um quartinho suspenso, uma espécie de sótão, na verdade um aproveitamento do vão da escada, repleto de livros. 
Visto de fora, com a porta fechada, parecia um armário qualquer, mas bem mais alto e mais fundo. Para alcançar qualquer coisa, tínhamos de entrar no espaço usando uma escadinha de três degraus, de madeira clara, que parece ter sido confeccionada especialmente para esse fim (era exatamente da altura que ia do chão à porta). Dentro, estantes por todos os lados. O teto era bem baixo - cabiam no máximo duas pessoas sentadas, encolhidas. Uma lâmpada lateral iluminava as leituras e aquecia bastante também, chegando às vezes a ser insuportável. Chamávamos o pequeno quadrado de “o buraco” - apelido bem pouco simpático tendo em vista o conteúdo.
Não me lembro do momento em que descobrimos o esconderijo e da primeira vez em que entrei nele, mas sei que, durante toda a minha adolescência, eu passava muitas horas lá dentro, arrumando e desarrumando tudo, desvendando os mistérios revelados por aquele tesouro. Havia muitos livros escolares, do ensino fundamental, que de certa maneira foram úteis nos meus estudos, mas também muita literatura, principalmente a infanto-juvenil e os clássicos da literatura brasileira. Li boa parte deles e sei que esse buraco contribuiu em muito para a relação que tenho hoje com os livros. Antes de morar nessa casa, eu já gostava de ler, mas havia poucos livros em casa. Depois disso, não consigo mais me lembrar da minha vida sem a presença dos livros e a visita constante a bibliotecas e livrarias.
Esse buraco dizia muito sobre os antigos moradores da casa. Com certeza, eram pais que compravam livros para os filhos, que valorizavam a leitura ou pelo menos apoiavam os projetos escolares (nessa escola lia-se bastante). Uma das filhas era a jovem Gisela. Lembro-me claramente de sua caligrafia infantil, do nome redondo e gordo estampado em etiquetas nas capas, seguido da série escolar. Gisela 2º ano. Gisela 4º ano. Além das histórias contadas nos livros, eu acompanhava também a história de vida dessa menina, companheira de leitura nas longas tardes juvenis, encolhidas as duas naquele cantinho mágico que nos levava para mundos encantados.
Quem diria que, em um país de poucos leitores, isso seria possível – um espaço como esse, totalmente atípico, recheado de livros, deixados de presente para o novo morador? Por que não os teriam levado consigo? O fato é que nós poderíamos ter jogado tudo no lixo (infelizmente, em nosso país, muitos o fariam) ou doado para uma biblioteca, mas, de certa forma, minha mãe também tinha consciência da importância deles em nossas vidas e lá os manteve, para a minha alegria. Foi lá também que guardamos os poucos livros que tínhamos e os que viríamos a adquirir, e o buraco tornou-se oficialmente a biblioteca da casa. 
A vida segue, somos obrigados a mudar de casa, de cidade, de país e a deixar para trás parte da nossa bagagem. Talvez, em minha próxima mudança, assim, meio displicentemente, eu deixe cair um livro da minha estante, que ficará esquecido por um tempo. Será uma lembrança ao próximo morador (Quem sabe não contribuirá para construir a sua história?) e uma homenagem à Gisela, que me deixou de presente o seu tesouro literário.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Projeto: Drummond



Recentemente, ao passar os olhos pela estante, à procura do próximo livro, encontrei a obra poética de Carlos Drummond de Andrade, em três volumes, a mim oferecida pela minha amada amiga Bete, no meu aniversário de alguns anos atrás. Os três livros tinham se deixado ficar ali escondidos, adormecidos, à espera, pacientemente. É claro que Drummond sempre esteve presente em minha vida (mesmo sem sabermos, ele nos acompanha a todos), porém, naquele momento em que reeencontrei os livros, tive a consciência de que eu nunca havia realmente lido toda a obra de Drummond como tem de ser, do início ao fim, categoricamente. E decidi iniciar esse projeto.
Sentei-me solenemente (é preciso muita solenidade para começar um projeto de tamanha amplitude), peguei o primeiro volume e comecei a observar atentamente a capa, com um Drummond já homem feito, a pele ainda lisa, os cabelos mais escuros, mas já calvo, usando óculos, terno e gravata. Percorri as informações técnicas iniciais linha por linha,  passei os olhos pela descrição dos volumes seguintes (já antecipando o que vinha pela frente), li o título do primeiro livro publicado pelo poeta, Alguma poesia, dedicado a Mário de Andrade, e alcancei o Poema de sete faces, com palavras conhecidas de todos: "Quando nasci, um anjo torto/ Desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida". Eu sequer sabia que esse tinha sido o primeiro poema publicado por ele, mas gostei da sensação boa de familiaridade ao encontrar esses versos. 
Esse sentimento de proximidade com a obra não passava, porém, de uma ilusão, pois, à medida que fui avançando, percebi que eu realmente não havia lido Drummond. Ao lado daqueles textos que sabemos de cor, porque repetidos à exaustão, estampados nas camisetas, há muitos outros menos ou nada populares (pelo menos para mim) que transformam a leitura dessa obra em uma constante descoberta. Como eu poderia pensar que conhecia a obra de um homem que escreveu por praticamente todo o século XX, incessantemente? É um mundo novo que se revela a cada verso, a cada página, e que nos leva por uma viagem pelo tempo e pelo mundo interior do poeta, este que trata de sua cidade natal, Itabira, como se estive falando do universo.
Um aspecto, não presente nas camisetas, me surpreendeu: a tristeza, a melancolia, a negatividade que permeiam muitos dos poemas. Essa pessoa que escreveu “eu não sabia que a minha história/ era mais bela que a de Robinson Crusoé” (que me fazem pensar em uma vida de sonhos infantis) pensou versos como “Perdi o bonde e a esperança”e “O hábito de sofrer, que tanto me diverte,/ é doce herança itabirana”, os quais revelam uma visão negativa do mundo, de si mesmo e de suas origens. O livro Sentimento do mundo está repleto dessa aura, seja nos títulos (Tristeza do império; Menino chorando na noite; Congresso internacional do medo), seja no corpo dos poemas. Os ombros suportam o mundo é de um pessimismo voraz: “Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus./ Tempo de absoluta depuração/Tempo em que não se diz mais: meu amor./ Porque o amor resultou inútil./ E os olhos não choram./ E as mãos tecem apenas o rude trabalho./ E o coração está seco.” Em A noite dissolve os homens, um cenário de guerra, morte e sangue é descrito na longa primeira estrofe. Em alguns casos, vislumbra-se a esperança, mas voltada para o futuro, porque o real, o agora é, na maioria das vezes, amargo, terrível, desanimador: “Dentro de mim,/ no fundo de mim, o grito/ se calou, fez-se desânimo.”
Percebi então que o meu projeto começava a falhar já nos primeiros poemas do primeiro volume. Como eu poderia pensar que ler Drummond se faz assim, dessa maneira, de um só fôlego? Seus poemas, todos eles, são de uma profundidade, de uma riqueza, de uma variedade temática tão intensa que ler rapidamente, em alguns dias, significa simplesmente não ler. Um poeta que acompanhou a evolução do século, escrevendo compulsivamente, intensivamente, tem de ser lido devagar, de mansinho, saboreado, dando tempo para a digestão tanto das amarguras quanto das doçuras. Eu diria que um poema por dia é o suficiente, para depois relê-lo no dia seguinte e só depois passar ao próximo, degustando cada verso com prazer, fazendo o máximo esforço para que a leitura continue por muito tempo ainda, quem sabe pela vida toda. 
É isso! Ler Drummond, na verdade, é um projeto para a vida inteira.  

terça-feira, 19 de agosto de 2014

As capas dos livros também contam histórias

No post anterior, apresentei os significados das capas dos livros para o reconhecido designer americano Peter Mendelsund, segundo o qual esse elemento gráfico, além de proteção, pode ser uma espécie de pele, moldura, talismã. Como prometido, hoje comento aqui algumas das minhas capas favoritas. 

Confesso que não foi fácil escolher, principalmente pelo fato de que a maioria dos meus livros não puderam me acompanhar nesta longa viagem (ficaram no Brasil, sob os cuidados da minha irmã). Tive de recorrer à única estante a que tenho direito em casa e à minha falha memória. Também tive dificuldades para definir o que realmente motivou a minha seleção: se a capa propriamente dita ou se, na verdade, o conteúdo dos livros, a relação que tenho com os autores, o todo. De qualquer maneira, vamos lá!


Este é o primeiro livro de que tenho lembrança em toda a minha vida. Com certeza eu já havia lido muitos outros antes dele na escola, mas curiosamente  foi este, a mim apresentado pela minha mãe, que mais me marcou. Numa daquelas tardes entediantes, em que eu reclamava de não ter nada para fazer, ela me deu um exemplar de O menino do dedo verde, de Maurice Druon (José Olympio Editora), que andava perdido pela casa e sequer sei como foi parar lá. Outras edições vieram depois, com capas mais coloridas, mais apelativas visualmente, mas é dessa que me lembro: o verde intenso do fundo contrastando com o branco da flor enorme brotando do polegar. O personagem principal, o menino Tistu, filho do dono de uma fábrica de canhões, transformava em verde, a cor da esperança, e em flores tudo o que tocava. 




Meu pai não estudou para além das séries iniciais, mas era daqueles que se deixavam levar pela lábia dos vendedores de livros que vinham bater à porta da nossa casa. Além de enciclopédias, ele comprou para os filhos essa preciosidade: a coleção completa de capa dura do Monteiro Lobato, da editora Brasiliense. Antes mesmo de eu existir, esses livros de capa vermelha com letras douradas e uma simpática florzinha no canto superior esquerdo e na lombada povoavam nossa casa. Lembro-me de colocá-los em ordem crescente, para depois bagunçar tudo de novo e voltar a ajeitar. Histórias da tia Nastácia eram o meu volume preferido, que li e reli inúmeras vezes. Depois de muitos anos, infelizmente, os volumes foram se perdendo, meus irmãos levaram alguns para suas casas e não sei mais o paradeiro da coleção.





Este é uma lembrança do tempo da escola: O menino maluquinho, de Ziraldo (editora Melhoramentos), um dos livros infantis mais lidos no Brasil há décadas. Não tem como esquecer essa capa, que não mudou muito com o passar dos anos: a figura do menino com uma panela na cabeça, terno e sapatos desproporcionais emprestados do pai, olhinhos espertos e sorriso feliz, sob o traço inconfundível de Ziraldo. Até hoje, ao ler esse livro para as minhas filhas, tenho vontade de chorar no final, quando o menino cresce e se torna um homem legal. 




Os livros da coleção Vaga-lume, da editora Ática, como  O mistério do cinco estrelas, O escaravelho do diabo, O menino de asas, A ilha perdida, Spharion, Éramos Seis, com certeza marcaram a infância e a adolescência de muita gente. São inesquecíveis as capas coloridas, dramáticas, cheias de ação e mistério. Um pouco pesadas para o meu gosto atual, mas sem dúvida fizeram parte de muitos dos meus sonhos e medos infantis.






A série Bom Livro, da editora Ática, marcou toda uma geração de leitores. Os clássicos da literatura brasileira me foram apresentados por meio dessas capas pretas, cujas ilustrações de gosto um pouco duvidoso contribuíam em muito pouco para aguçar minha imaginação em relação às narrativas, mas fazem sim parte da identidade das obras e da imagem que tenho de muitos desses autores. Quem não se lembra do rosto em mosaico de Machado de Assis na contracapa ganhando a cor dourada aos poucos, simbolizando talvez a nossa entrada gradativa no enredo e colorindo nossas vidas com o que há de melhor na literatura nacional?






A Odisseia, de Homero, uma das primeiras obras da literatura ocidental, foi também a primeira obra da minha vida universitária. Essa capa, da editora Cultrix, marcou muito essa fase, pois, durante todo o primeiro semestre, eu andava pela Universidade de Brasília para cima e para baixo com um exemplar desses, chamando a atenção de alguns curiosos que se aproximavam exclusivamente para comentar o livro. Além de ser linda! Essa cor turquesa sobre o fundo branco gera um resultado muito elegante, marcado também por uma das cenas dessa epopeia que conta as aventuras de Ulisses em sua  volta para Ítaca após a Guerra de Troia. 




Em uma agradável noite, eu, minha mãe e meu irmão Marcos percorríamos os corredores largos da feira do livro de Brasília, quando, de repente, os três volumes das Obras Completas de José Saramago brilharam diante dos meus olhos. Foi paixão à primeira vista! Um pequeno grande dilema se formou: à vista, parcelado, caro demais, nós ajudamos, eu pago a segunda parcela, e eu a terceira. Conclusão: dormi naquele dia abraçada aos meus tesouros, com um sorriso imenso nos lábios e Blimundas, estorninhos e penínsulas navegantes a velarem meu sono. E não é que capa vermelha e o dourado lembram a coleção de Monteiro Lobato, em uma versão mais rebuscada?



A capa do livro Memórias inventadas, de Manoel de  Barros (editora Planeta), é literalmente um presente para os leitores. Trata-se de uma caixinha de papelão em cor parda, com os dados essenciais e a ilustração de Martha de Barros, filha do autor, sob fundo branco. Dentro, está o livro cuidadosamente amarrado com uma fitinha de cor alaranjada. Esse esmero na apresentação é ímpar e, aliado à beleza dos versos desse que é um dos maiores poetas brasileiros, faz com que seja uma capa inesquecível. 





Confesso que não gosto de capas que tenham imagem associada ao personagem principal (pois me forçam a pensar no personagem daquela maneira) nem daquelas com uma foto do autor a pousar como se dissesse: "Olha, fui eu quem escrevi este livro, viu?!" Mas esta de Lunário, do escritor português Al Berto, é toda ele próprio - chega a ser um assinte essa face tão exposta, tão à mostra -, mas as cores em sépia, a tonalidade meio envelhecida, o olhar puro, terno e angelical (nada parecido com sua personalidade), os cabelos encaracolados, enfim toda a composição transforma o que seria uma ofensa em delicadeza. Essa superexposição, presente em várias das capas dos seus livros, na verdade é intencional, artística e relaciona-se com o caráter autobiográfico de sua literatura. Gosto muito do resultado, assim como de todos os dessa editora portuguesa, a Assírio & Alvim.



Esta capa, do mais recente livro do poeta português Herberto Helder, A morte sem mestre (Porto editora), à primeira vista parece não ter nada de especial. Até eu saber de uma curiosidade: a de que o autor - um daqueles escritores reclusos, conhecido apenas por uma foto antiga, que vive escondido de tudo e de todos em um lugar distante, recusando-se a aparecer na mídia - pois esse autor sempre encapa seus livros com papel de embrulho castanho e escreve o título e o nome do autor de próprio punho, com caneta vermelha. Foi justamente isso que a editora tentou reproduzir na capa, o que a torna especial para mim. É como se, ao saber desse detalhe, aquele homem misterioso se deixasse mostrar um pouco e me contasse um segredo sobre si jamais antes revelado em sua poesia. Como se não bastasse,  trata-se de uma edição única, lançada este ano e já esgotada. 




Por fim, este livro que é o meu trofeu! Uma edição especial desse longo poema de José Saramago, O ano de 1993, ilustrado por Graça Morais (editora Caminho). Eu já tinha lido essa obra em outros formatos (até mesmo nas Obras Completas acima comentadas), mas não sabia da existência dessa edição. Até que, por acaso, ao vasculhar uma livraria daquelas bem tradicionais de Lisboa, quase um sebo de tão antiga, encontrei essa preciosidade. Não conheço ninguém que tenha um exemplar como esse (talvez a professora Hilda Lontra), por isso secretamente imagino que este seja o meu livro raro. 



Esse exercício de encontrar algumas das capas mais marcantes para mim foi riquíssimo. Em princípio, não foram as capas que vieram à minha memória, mas o título e o autor, além do conteúdo do livro. No entanto, observá-las, reavaliá-las, reencontrar algumas depois de tantos anos foi uma experiência enriquecedora, prazerosa e cheia de emoção. Em um primeiro momento, eu não conseguia me lembrar dos livros da minha adolescência, justamente uma fase em que eu lia incessantemente, às vezes um livro por dia. Quando recuperei as coleções da editora Ática, foi como a conclusão de um quebra-cabeça. E rever tudo isso significou sobretudo o reencontro com momentos, pessoas, fases, da infância à vida adulta. Foi na verdade uma maneira de fazer uma retrospectiva da minha própria vida. 

Espero que tenham gostado, que minhas capas favoritas tenham ao mesmo tempo trazido boas lembranças a vocês, mas também inspirando novas e boas leituras!
E você? Lembra-se de algum livro com uma capa especial, que te traga boas lembranças?